sexta-feira, 2 de julho de 2010

RBS, Colégio Catarinense e o território livre da internet

O episódio do abuso sexual cometido por três garotos de classe alta em Florianópolis, entre eles o filho de um diretor da RBS em Florianópolis, requer de nós um olhar bastante cuidadoso e algumas reflexões.

A facilidade com que as pessoas repassam as informações sem ao menos checar a sua veracidade é impressionante. Desde a primeira vez em que recebi o e-mail relatando o ocorrido, já era fácil perceber que aquela carta de um suposto grupo de mães do Colégio Catarinense tinha um quê de fantasioso e rancoroso, como se seu autor estivesse mais interessado em vomitar seu ódio contra o referido Colégio do que expressar efetivamente o seu repúdio ao terrível ato do abuso cometido pelos jovens.

Mas o território livre da internet não quer saber o que é verdade, o que é falso. Ele apenas quer ampliar seu limites, espalhar-se como um virus incontrolável, atingindo a todos os envolvidos, sejam eles culpados ou inocentes. E conta com a colaboração ingênua da maioria dos internautas, que geralmente replicam e-mails sem uma simples averiguação.

De nada adiantou uma nota do Colégio Catarinense afirmando que os garotos nem eram alunos da instituição. Quem repassou o primeiro e-mail, muito mais bombástico, dificilmente encaminhará para sua lista de endereços a mensagem que tenta recolocar no lugar algumas verdades. Tarde demais, o estrago já está feito. Para alegria de quem deu o primeiro tiro.

Por outro lado, não podemos deixar de notar também o papel importante dos blogs e meios eletrônicos num Estado em que infelizmente o poder da mídia é concentrado apenas em uma empresa, no caso a RBS. Em outras épocas, pré-internet, provavelmente ninguém teria tomado conhecimento do ocorrido. Com a internet, a conhecida "operação abafa" já não é tão bem sucedida como antigamente.

Neste sentido, a internet então pode ter um duplo e contraditório papel: ser um terreno fértil para o plantio de falsas denúncias com efeitos devastadores, ou um espaço que pode nos salvar da hegemonia de grupos midiáticos poderosos que escolhem quais notícias podem ou não podem chegar até a população.

Mas atenção: se não podemos condenar o Catarinense neste caso específico, pois esses garotos poderiam sim ser de qualquer colégio, particular ou público, não podemos tampouco ignorar a crueldade e repugnância do abuso cometido por estes rapazes, exemplos perfeitos de uma sociedade adoecida, reflexos de uma forte crise de valores pela qual passam as famílias dos tempos atuais. Crise que, para o adolescente, se manifesta no desrespeito ao outro, no desrespeito ao corpo do outro, e no desrespeito ao seu próprio corpo e a si mesmo. 

Merecem sim a justa condenação, não por serem filhos de quem são, mas pelos criminosos atos cometidos.

Diante de um caso tão horroroso como esse, alguns pensamentos me vem à mente:

. A menina vitimizada, juntamente com sua família, precisa de um delicado tratamento psico-emocional, que lhes traga fortalecimento para superar os efeitos de toda esta brutalidade vivenciada;

. Estes garotos, paralelamente às justas condenações que esperamos possam vir sobre eles, necessitam também de uma intervenção psicológica, seja para compreender o que os levou a chegar ao ponto de cometer tais atos, seja como uma forma de trabalhar preventivamente para que eles não voltem a ocorrer;

. A RBS, sempre tão impiedosa nas divulgações dos escândalos, agora bebe de seu próprio veneno, e seu comentarista que fica na hora do almoço despejando pela televisão suas técnicas educacionais na base da porrada, soltando impropérios e esmurrando a mesa com sua cara de homem irrepreensível, desta vez não se manifestou nem chamou os meninos pra "sua delegacia";

. Algumas pessoas estão se aproveitando da tragédia vivida pela menina e sua família para manifestar seu ódio classista e elegeram o Colégio Catarinense como vilão desta história, misturando propositalmente fatos reais com mentiras;

. Já que neste caso não é possível haver uma comoção popular midiática, pois geralmente é a própria RBS/Globo que fomenta este tipo de reação na população, a tal comoção está vindo pela internet - uma "comoção virtual", com os blogs replicando informações, denúncias, opiniões, verdades e falsidades. 

É lamentável que histórias como esta aconteçam em nossa cidade, você não acha?


18 comentários:

mutuca disse...

Pois é, desde sempre se condena justa ou injustamente. Desta vez foi o Colégio Catarinense mas já aconteceu com uma instituição de ensino em SP... Só que dessa feita foi a maior rede do país. O alcance dessas aleivosias é sempre grande variando a rapidez com se dissemina. Abraços, Portela.

Anônimo disse...

Mandou bem, novamente, João. Abraço
Adriano

patriciabackes disse...

Continuo não entendendo lhufas! Afinal, o estupro ocorreu ou não? Prá mim tanto faz a escola, o que a escola tem a ver com isso? Tudo ocorreu (se ocorreu) fora da escola...

Andréa disse...

David, como sempre falou muito bem. Recebi muitos deste e-mails nesta semana,mas como já faço há um tempo, não repasso qualquer coisa....sempre penso muito naquilo que pode acrescentar a minha mensagem, aliás, aprendi um pouco contigo! Quanto ao fato realmente o problema maior não é a escola, e sim os valores que se passam para estes adolescentes, na minha opnião em suas próprias famílias. Isso sim preocupa e muito!
Parabéns

Anônimo disse...

Parabenizo o comentário do JD e concordo plenamente em todos os pontos. Na verdade vejo que a nossa sociedade está seriamente doente e que se as pessoas não se conscientizarem disso situações absurdas como essa continuarão acontecendo.

jd disse...

Para quem não mora em Floripa, aqui vai um resumo do caso, reportagem da Ric Record: http://www.youtube.com/watch?v=QluYahWv6Ms

Cris disse...

Eu francamente não considero que o colégio Catarinense tenha sido condenado pelas indignadas mães que colocaram na internet seu desabafo.
O Colégio Catarinense é sim o colégio onde estudam a maioria dos filhinhos de papai de nossa cidade, aqueles que acreditam ser os filhos dos donos da cidade, quando não os próprios.
Nenhum colégio tem condição de suprir a base, a família, o exemplo que se tem em casa e os bons (ou maus) princípios comque a criança presencia dede bem pequenininho.
Pra mim ficou bem claro que as maçãs podres do Colégio em questão tornam o lugar inseguro sim, mas quem é responsável pela presença delas lá?

Ruy Samuel disse...

Ilustre Psicólogo João David Mendonça:

Concordo com suas judiciosas ponderações.

De fato, tudo é muito grave, exige atenta e justa apuração.

Exige também reflexão diante de tanta violência.

Reflexão sem preconceito, sem sede justiçamento a qualquer preço.

Justiça e linchamento são conceitos que se excluem, são termos incompatíveis entre si.

Enquanto tudo não for devidamente esclarecido, é preciso contermos preconceitos e prevenções.

Injusto o envolvimento do nome colégio catarinense em tudo.

Em primeiro lugar, pelo fato do ocorrido não ter se dado no interior do educandário; e, em segundo, segundo obtive informações inoficiais, todos os envolvidos não são alunos do colégio catarinense.

Que a razão ilumine a descoberta da verdade.

Parabéns pelas suas colocações tão precisas e maduras, em meio ao mar de emotividades que casos assim suscitam.

Com o reconhecimento e o respeito do Ruy Samuel Espíndola.

Clarissa Bianca Sbruzzi disse...

Senhores pais de alunos e comunidade:



Como é do conhecimento dos senhores pais de alunos e da comunidade, estão sendo veiculados pela internet e atribuídos ao Colégio Catarinense uma série de fatos e situações. Fatos gravíssimos, não só pelo seu aspecto criminal, como pela tentativa de atingir a imagem desta instituição de ensino.



As inverdades veiculadas pelo “grupo de mães”, escondidas no anonimato, ao acusar irresponsavelmente o Colégio Catarinense, parece que tem o intuito de denegrir uma imagem construída durante mais de um século, com imensuráveis serviços prestados à educação de crianças e jovens de Florianópolis e Santa Catarina. O fato principal, fora do alcance do Colégio, envolveu adolescentes que não são seus alunos. Repudiamos a covarde acusação e esperamos que as autoridades tragam à luz os fatos e a verdade.



O Colégio Catarinense manifesta à família da adolescente, vítima deste triste episódio, sua solidariedade. Aos pais de nossos alunos, o colégio confirma o compromisso de continuar educando para valores humanos e cristãos, disponibilizando para isso recursos humanos, didáticos e materiais adequados.



Mais uma vez, esta Instituição de Ensino agradece a solidariedade e a confiança.



Atenciosamente.



Direção Geral

louisacarla disse...

Prezado João David,

Sou educadora e atuo há vinte anos no Colégio Catarinense. Atualmente coordeno o Serviço de Orientação Pedagógica, responsável por dar à escola, os rumos de ação tanto no que se refere aos conteúdos conceituais, imprescindíveis para que os alunos se inseram no mundo, quanto aos conteúdos atitudinais, aqueles que subsidiam a reflexão e a formação de homens e mulheres que sejam responsáveis pela mudança do mundo. Tenham certeza que esse é o diferencial do Colégio - preparar homens e mulheres com forte interesse pela sociedade e pelo outro. Infelizmente, enfrentamos como escola, as mesmas mazelas que assolam a sociedade. Famílias que terceirizam seus filhos, que conferem à escola as tarefas mais simples e corriqueiras. Ora, quem deve ensinar uma criança a cumprimentar os outros, a agradecer quando se sente grata, a ser gente...é a família e não a escola. Percebemos com pesar que, apesar de presenciarmos um transbordamento do currículo (a escola é responsável pela educação sexual, aulas de etiqueta, educação financeira, ambiental,ética...)e um excesso de responsabilidades delegadas pelas famílias, temos cada vez menos legitimidade para orientar e aplicar sanções aos alunos. Existe uma crença infundada que a orientação segura pode ser traumática... Posso afirmar que os trezentos educadores (professores e funcionários) que atuam no Colégio Catarinense esforçam-se diuturnamente para que nossa mediação docente seja efetivamente transformadora. Os adolescentes envolvidos neste caso não são alunos de nossa escola, isso não é o mais importante. Percebemos neste momento, como educadores, a possibilidade histórica de ocupar o espaço de reflexão e repensarmos as novas formas de constituição das relações entre escolas e famílias no mundo contemporâneo, em que a desqualificação da pessoa humana tem sido cada vez mais frequente.

Lara disse...

Parabéns, JD! Excelente comentário!
O colégio catarinense acabou sendo duplamente um bode expiatório. Primeiro porque foi envolvido numa tragédia onde nem se quer os criminosos são seus alunos. Segundo porque é alvo da manifestação de um ódio classista. Eu estudei lá durante 6 anos e o considero bastante seguro.

Gustavo disse...

Olha, sou obrigado a discordar de uma parte.
Não foi falado nada contra o Colégio catarinense, apenas foi exposto (e assinado) o e-mail como mães do colégio, visto que os "marginais" seriam estudantes (ou apenas frequentadores?!) do colégio.

Anônimo disse...

Afirmo com toda a segurança que um dos alunos era sim, aluno do Catarinense, mas foi expulso assim que o colegio tomou conhecimento do trágico fato.
Entretanto, acredito que este tipo de acontecimento não é culpa de nenhuma escola, mas de uma sociedade doente e pais permissivos. Afinal, a escola é apenas um complemento da educação que se tem em casa.

jd disse...

Caros amigos e leitores do Psicojd, agradeço carinhosamente a todos os que estão contribuindo com seus comentários, observações e ponderações.

Sinto-me honrado em perceber que o blog possui leitores e visitantes com tal nível de respeito e consideração.

Espero que este blog continue sendo digno de receber sempre a sua visita, servindo como um espaço de reflexão saudável e rica troca de idéias.

louisacarla disse...

Prezado João David,
Tomei a liberdade de publicar seu texto em meu blog, com as devidas referências à sua autoria. Se houver algo que o desaprove, favor me contactar.
Grata,

Louisa Carla Schröter


http://blogdosop.zip.net/

louisacarla disse...

Prezado João David,
Tomei a liberdade de publicar seu texto em meu blog, com as devidas referências à sua autoria. Se houver algo que o desaprove, favor me contactar.
Grata,

Louisa Carla Schröter


http://blogdosop.zip.net/

Lia Beatriz Boger disse...

Recebi o e-mail em questão e o repassei, mesmo não tendo confirmação da veracidade. O fiz questionando se outra emissora não poderia fazer o "jornalismo investigativo". Ainda não vi nada na mídia. A escola vítima poderia até mesmo aparecer para defender-se de forma abrangente. Não vejo nada sendo feito. À vítima, minha oração para que supere a violência sem razão de pessoas mal educadas e mal orientadas quanto aos valores tão escassos nesses tempos em que ter ale mais do que ser.

jd disse...

Olá Louisa
Fique à vontade para publicar o texto em seu blog. Se meu texto puder contribuir para o debate e para a ampliação das idéias, considero isto muito positivo e não vejo problema algum em sua divulgação. Ao contrário, o fato de manter meu blog com temas em psicologia, é extamente para compartilhar com o maior número possível de pessoas os pensamentos e valores que considero saudáveis e importantes pra nossa sociedade.
Então, tenho apenas que agradecê-la por me ajudar a divulgá-lo
Grande abraço
João David