terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Feliz Natal Digital

Nesta história do nascimento de Jesus em versão digital, aproveitamos para desejar um Feliz Natal a todos os leitores e amigos do blog.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O perigo de uma única história

Nossas vidas, nossas culturas são compostas de muitas histórias sobrepostas. A escritora Chimamanda Adichie conta a história de como ela encontrou sua autêntica voz cultural - e adverte-nos que se ouvimos somente uma única história sobre uma outra pessoa ou país, corremos o risco de gerar grandes mal-entendidos.
Abaixo do vídeo há opção para legenda em português (view subtitles).


sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Michael Jackson e os efeitos da violência

Quem me conhece sabe que não sou muito inclinado a traçar perfis psicológicos de celebridades. Tenho convicções de que estas análises são sempre baseadas em fontes frágeis e pouco seguras, sempre sujeitas a equívocos.

Mas ontem recebi convite do Jornal do Almoço (RBS) para uma conversa sobre o recém lançado livro "O que realmente aconteceu com Michael Jackson", escrito por Leonard Howe e divulgado aqui no Brasil com a participação do próprio pai do artista, Joseph Jackson. A idéia da jornalista Tata Fromholz era aproveitar o lançamento do livro em Florianópolis e a possível presença de Joe Jackson, para conversar a respeito da conturbada relação entre Michael Jackson e seu pai, e como esta relação pode ter moldado sua polêmica personalidade.

Foi um bate-papo muito agradável, e compartilho aqui com vocês algumas reflexões que me vieram a partir desta conversa.


Começo pensando que, por mais livros que se escrevam ou documentários que se produzam, nunca saberemos o que realmente aconteceu com Michael Jackson. Seja sobre as razões que envolvem a sua morte prematura - o assunto do livro em questão - ou seja sobre a sua própria vida, que já foi e continua sendo tema de dezenas de biografias e documentários. A razão é simples: MJ foi transformado em mito, e mitos são sempre cercados de relatos e narrativas cujas histórias são contadas por inúmeras fontes, e cuja verdade factual se perde na infinidade de versões.

Porém, uma narrativa recorrente em sua biografia, relatada diversas vezes pelo próprio MJ em entrevistas, é a situação de violência à qual MJ e seus irmãos eram sujeitados, especialmente pelo rígido pai, que os obrigava, desde pequenos, a ensaiar exaustivamente, proibindo-os até mesmo de brincar.

Vou utilizar as próximas linhas para especular um pouco sobre isto. Se quiser me acompanhar, será um prazer. Vamos lá?

Um olhar sobre a vida pública do "astro pop" nos permite pensar na violência em termos de seus efeitos:

Efeito sobre a auto-estima. A cada surra que uma criança leva, ela leva com ela também uma mensagem embutida: "você faz errado", "por mais que você faça, não é suficiente"; "seu valor está baseado na posse das qualidades que você carrega e não no que você é"; "seu valor está no que você faz ou deixa de fazer". A criança aprende que para não apanhar, ou para não decepcionar os pais, ela tem que suprir as expectativas depositadas sobre ela.

Efeito sobre a identidade. A noção de "quem sou eu" é influenciada também pela relação que a criança estabelece com seus cuidadores. Quando os seus feitos são respondidos em termos de "apanhar" ou "não apanhar", esta identidade vai sendo construída sobre um terreno de ameaças e de inseguranças, de desconfianças de suas próprias capacidades e habilidades, de temores de não conseguir agradar ou suprir as expectativas. A consequência disto é a vivência de um paradoxo: uma elevada auto-exigência em busca de excelência em tudo que faz - muitas vezes até com sucesso, e ao mesmo tempo uma sensação constante de insatisfação e uma certeza de que este seu sucesso é na verdade uma mentira que ela conta aos outros -  e que logo todos descobrirão a "farsa".

A triste ironia na vida de MJ é que na procura de libertar-se da rigidez e tirania de um pai violento, ele acabou substituindo este pai por um outro tão ou mais tirano quanto: um pai chamado "Indústria Pop". Este "novo pai" também apresentava sua extensa lista de exigências, e segui-las trouxe para MJ - um garoto assustado com a possibilidade de não dar certo - a perda de si mesmo. A pessoa não mais existe, apenas o mito, a personagem, a celebridade que necessita sentir-se admirada por todos para manter a sensação de grandiosidade como forma de dar sentido à vida, como forma de obedecer aos mandatos do pai Joseph e do pai Indústria. A capa de seu álbum HIStory é um bom exemplo disto, ao trazer uma imagem de MJ sendo representado por uma gigantesca estátua, dando a sugestiva conotação de sua grandiosidade.



Mas exatamente por estar alicerçada em realizações e qualidades e não na própria autenticidade, esta Grandiosidade é frágil e inconsistente, e apenas esconde por trás de si uma personalidade confusa e movida - ou paralisada - por inseguranças e incertezas. A Grandiosidade é muitas vezes um lado da moeda que ao ser virada, revela sua outra cara: a Depressão. Grandiosidade e Depressão são dois lados polarizados de uma identidade em busca de si mesma. Visto dessa maneira, a grandeza de uma Neverland traz em seu avesso a tentativa de resgatar a infância que não houve; a grandeza de sua arte traz em seu avesso a auto-estima fragilizada; a excentricidade de seus atos traz no seu avesso a desesperada necessidade de ser admirado; a abundância financeira traz no seu avesso o rosto assustado de um menino que não podia acreditar em sua própria capacidade.

E ainda poderíamos acrescentar as transformações físicas, especialmente as faciais. Mas todas estas suas deformações estéticas, consequência da frenética busca pela perfeição, são na verdade uma melancólica metáfora da deformação de sua própria identidade.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Casamento para toda vida

Este é o título do livro de Judith Viorst, psicóloga autora do best-seller Perdas Necessárias. Uma ótima sugestão de leitura para todos que estão interessados em refletir sobre os desafios da vida a dois, os conflitos, a sexualidade, a relação com os familiares, a opção do divórcio e outras temáticas presentes no cotidiano da conjugalidade.


Transcrevo abaixo um belo trecho da introdução do livro.

Embora casamento seja coisa de adultos, pouquíssimos de nós o são, quando casamos. Tornar-se adulto leva tempo, talvez uma vida inteira, e chegar lá - se é que chegamos - é difícil. Entretanto, o casamento, que é provavelmente o mais massacrante dos relacionamentos, também pode ser o motor de nosso crescimento. Ao entrar em alguma sintonia com nossos desencantos, nossas exigências e as atrozes complexidades do cotidiano da vida conjugal, podemos criar - e que não se entenda isto como um jogo de palavras - um casamento adulto.

No casamento adulto, entendemos que não somos, nem devemos ser, o professor, o pai ou a mãe, o editor, o supervisor ou o decorador um do outro.

O casamento adulto nos permite encontrar o equilíbrio entre dependência e união.

No casamento adulto, tornamo-nos cada vez mais condescendentes com as limitações e as imperfeições do parceiro.

No casamento adulto, não ficamos contando quem perdeu e quem ganhou - pelo menos, não em voz alta.

No casamento adulto, reconhecemos que nem sempre precisamos estar de amores um com o outro. De fato, estamos bem conscientes de que isso não pode acontecer o tempo todo. O casamento adulto, porém, permite-nos segurar a barra quando nos desentendemos e aguentar firme até fazermos as pazes.

O casamento adulto envolve uma ardilosa combinação entre o honesto e o educado.

No casamento adulto, somos capazes de pedir desculpas quando estamos errados, e não tripudiar, quando estamos certos. Também somos capazes de aceitar um pedido de desculpas que não chegue a ser humilhação, mas que não fique muito longe disso.

No casamento adulto, o riso excede o pesar.

No casamento adulto, aprendemos a perdoar e a esquecer. Bem, esquecer talvez não.

No casamento adulto, sabemos como nos comunicar um com o outro e quando a melhor e a única coisa a fazer é fechar a boca.

No casamento adulto, reconhecemos que o casamento, em si, não vai nos dar uma identidade real ou resguardar-nos das tristezas e dores da vida, ou mesmo proteger-nos para sempre da solidão.

Este livro aborda as possibilidades e dificuldades de a gente se manter, realmente, bem casado por longo tempo. Trata daquilo que uma amiga minha, casada, chama de "a maravilhosa, embaraçada, emaranhada, complicada união de duas vidas". Trata do triunfo - e, quando o casamento funciona, é de fato um triunfo - de criar e sustentar essa união. É um livro sobre como manter um casamento adulto.

Escrevi este livro para pessoas casadas que, embora às vezes - talvez mais do que às vezes - machuquem um ao outro, se irritem e se desapontem um com o outro, querem continuar casadas. É endereçado tanto aos recém-casados quanto àqueles que, como eu, já estão nele há muito, muito tempo.

Falo para casais conscientes, ou que já deviam estar conscientes, de que o casamento raramente é um paraíso; às vezes, ele inclui algumas temporadas no inferno. Se marido e mulher conseguirem, finalmente, acertar o casamento, as temporadas no inferno terão valido a pena.

Judith Viorst, Casamento para toda vida, Ed. Melhoramentos

sábado, 4 de dezembro de 2010

Felicidade é o principal motivador de estudantes ao escolher profissão



SÃO PAULO – Na hora de escolher qual profissão seguir, a maior parte dos estudantes, 31,70%, tem no prazer e na felicidade os principais motivadores. A conclusão é de pesquisa feita pelo Portal Educacional e faz parte do Guia de Profissões, projeto criado pela Divisão de Tecnologia Educacional da Positivo Informática.

Em seguida, com 30,39% das respostas, aparece o fato dos estudantes quererem seguir um ofício em que possam usar suas habilidades, satisfazendo assim seus interesses; em outras palavras, possibilitando fazer o que gostam.

Na terceira posição aparece o salário, com 27,93% das indicações, sendo que 14% dos estudantes decidem a profissão por influência do status e do retorno financeiro que o curso acadêmico ou profissionalizante pode proporcionar.

Informação

Ainda segundo o estudo, a busca por informações sobre as profissões é feita, sobretudo, pela internet (39,93%). Outros 20,98% procuram visitar um profissional em seu ambiente de trabalho e 19,74% leem livros relacionados e guias de profissões.

Apesar disso, a maioria dos estudantes, 58,61%, afirma ter conhecimento a respeito de apenas alguns cursos; 13,58% conhecem só o curso que pretendem escolher e 11,94% não conhecem a maioria dos cursos.

Família

O levantamento do Portal Educacional aponta também que a família ainda exerce um papel importante na escolha profissional dos alunos, com 63% dos jovens dizendo que conversam com seus pais e outros profissionais sobre o que eles fazem, onde e como trabalham.

No geral, diz a psicóloga especialista em orientação vocacional e uma das coordenadoras da pesquisa, Selena Maria Garcia Graça, “aqueles jovens que, no decorrer do Ensino Médio, não procuraram obter o conhecimento necessário a respeito de cursos e profissões, ou seja, 66%, são os que recebem maior influência da família no momento de decisão”.

Abaixo, veja mais alguns pontos sobre a relação entre a família e a escolha da profissão:

18,31% dos jovens conversam apenas com pais e familiares sobre a escolha da profissão;

10,36% não discutem o assunto em casa;

35,49% recebem apoio dos pais e têm liberdade para escolher a profissão;

19,53% consideram a opinião dos pais, mas ela não tem peso na hora exata da decisão;

Profissões relacionadas com as áreas de artes, incluindo moda, música, cinema, dança, artes ciência e fotografia sãs as mais reprovadas pelos pais. Em seguida aparecem pedagogia, psicologia, biologia, educação física, filosofia, história, letras e licenciaturas em geral. Polícia civil, militar e bombeiro aparecem logo depois.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Autor de Arroz de Palma visita o blog

Quero compartilhar com vocês a minha imensa satisfação por ter recebido hoje aqui no blog um comentário do escritor Francisco Azevedo, autor do romance "O Arroz de Palma", agradecendo a força na divulgação que fiz do livro aqui e no meu Twitter.
O comentário foi feito no post Família é prato difícil de preparar , em que transcrevo um trecho do livro.
Se você ainda não leu este texto, então vá lá e delicie-se.


quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A Verdade Nua e a Parábola

A meus colegas que trabalham com metáforas e terapias narrativas, segue um belo texto:


A Verdade Nua caminhou pela rua um dia.
As pessoas viraram o olhar para outro lado.

A Parábola chegou, adornada e bem vestida.
As pessoas a saudaram com alegria.

A Verdade Nua sentou-se solitária, triste e despida.
"Por que você está tão triste?" - perguntou a Parábola.

A Verdade Nua respondeu: "Não sou mais bem-vinda.
Ninguém quer me ver. Eles me expulsam de suas portas."

"É difícil olhar para a Verdade Nua" -- comentou a Parábola.
"Deixa-me vesti-la um pouco. Certamente, você será bem recebida".

A Parábola vestiu a Verdade Nua com um vestido fino feito de narrativa, com metáforas, uma prosa incisiva e enredos cheios de inspiração.

Com riso e lágrimas e aventura a se revelar, juntas elas começaram a desfiar uma história.

As pessoas abriram suas portas e serviram a elas o que havia de melhor.
A Verdade Nua vestida de história era uma convidada muito bem-vinda.

(conto judaico, readaptado por Heather Forest)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Às vezes...

Às vezes as correntes que nos impedem de ser livres são mais mentais do que físicas.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Um livro nunca deixará você na mão

[Campanha publicitária de uma agência de Dubai, dando a dica da diferença entre o livro e a internet]

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Eu

Pessoal do Palavra Cantada cantando a formação da Família e da identidade.

sábado, 9 de outubro de 2010

Primavera

Música de Brinquedo

Música de Brinquedo é o nome do mais novo álbum do grupo mineiro Pato Fu. Eles fizeram covers  releituras de "músicas de adulto" utilizando apenas instrumentos de brinquedo e o resultado ficou surpreendente. Neste clip, uma versão para Live and Let Die, de Paul McCartney.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Pequeno Cidadão

Um projeto musical muito legal para crianças, desenvolvido por Arnaldo Antunes (ex-Titãs), Edgard Scandurra (ex-Ira!), Taciana Barros (ex-Gang 90) e Antonio Pinto, compositor de trilhas sonoras.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Família é prato difícil de preparar

Lindo texto extraído do livro "O Arroz de Palma" de Francisco Azevedo (Editora Recod, 2008)



Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema, principalmente no Natal e no Ano Novo. Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência. Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir. Preferimos o desconforto do estômago vazio. Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer e aquele fastio. Mas a vida - azeitona verde no palito - sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano - quem diria? - solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente.

E você? É, você mesmo, que me lê os pensamentos e veio aqui me fazer companhia. Como saiu no álbum de retratos? O mais prático e objetivo? A mais sentimental? A mais prestativa? O que nunca quis nada com o trabalho? Seja quem for, não fique aí reclamando do gênero e do grau comparativo. Reúna essas tantas afinidades e antipatias que fazem parte da sua vida. Não há pressa. Eu espero. Já estão aí? Todas? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza.

Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias - que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar -  tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa.

Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto, é um verdadeiro desastre. Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido. Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Uma grande amiga minha desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada.

O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Não existe “Família à Oswaldo Aranha”, “Família à Rossini”, Família à “Belle Meunière” ou “Família ao Molho Pardo” - em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria. Família é afinidade, é “à Moda da Casa”. E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.

Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada - seriam assim um tipo de “Família Diet”, que você suporta só para manter a linha. Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.

Há famílias, por exemplo, que levam muito tempo para serem preparadas. Fica aquela receita cheia de recomendações de se fazer assim ou assado - uma chatice! Outras, ao contrário, se fazem de repente, de uma hora para outra, por atração física incontrolável - quase sempre de noite. Você acorda de manhã, feliz da vida, e quando vai ver já está com a família feita. Por isso é bom saber a hora certa de abaixar o fogo. Já vi famílias inteiras abortadas por causa de fogo alto.

Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança. Principalmente na cabeça de um velho já meio caduco como eu. O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Rede Globo é um estímulo à leitura

O novo reality show da Rede Globo é mais uma oportunidade que a emissora nos proporciona de desligar os aparelhos de televisão e aproveitar para ler um bom livro. Não jogue fora esta chance!

domingo, 5 de setembro de 2010

25 livros comentados brevemente

Compartilho com os amigos e leitores do blog alguns livros que li entre janeiro e agosto de 2010, com breves comentários ao lado de cada título. De todos os vinte e cinco livros incluídos nesta relação, apenas um me desagradou.


Cartier-Bresson: o olhar do século
Pierre Assouline
L&PM Editores

Biografia de Henri Cartier-Bresson, um dos fotógrafos mais brilhantes de nossa história. Uma viagem pelo tempo na companhia deste artista que praticamente atravessou o século passado (nasceu em 1908 e morreu em 2004). Bresson é autor de muitas imagens famosas, registros da Guerra Civil Espanhola, de suas viagens à Africa, do funeral de Gandhi, e muitos outros momentos do século passado.


O símbolo perdido
Dan Brown
Editora Sextante

Para quem gosta de se prender numa história cheia de enigmas, o autor de O Código da Vinci oferece mais um banquete neste livro, com todos os ingredientes a que se tem direito. O assunto agora é Maçonaria. Não dá pra descansar enquanto não se chega ao fim do livro.



Sinto-me só
Karl Taro Greenfeld
Ed. Planeta

Um livro muito humano e comovente, e ao mesmo tempo realista, sobre a história do autor e sua convivência com seu irmão mais novo, portador de autismo severo. O livro começa meio lento, mas na medida em que a história autobiográfica vai se desenvolvendo, somos levados a acompanhar emocionalmente a dura realidade das famílias com pessoas portadoras de deficiência, relatada aqui de maneira honesta e sem rodeios. E com um final surpreendente.



Tenha um pouco de fé
Mitch Albom
Ed. Sextante

Do mesmo autor do belo A última grande lição, esta é uma história muito interessante sobre fé.
Depois de receber do Rabino Albert Lewis o pedido para fazer seu discurso fúnebre, Mitch passa a visitá-lo nos fins de semana, relembrando a sua própria história de fé judaica da qual ele havia se afastado.
Ao mesmo tempo, ele fica intrigado com a história de Henry Covington, um ex-dependente e ex-traficante que converteu-se ao cristianismo e tenta manter uma velha igreja e um projeto de assistência a moradores de rua.
O cruzamento destas duas histórias dão o tom deste emocionante livro.


Caim
José Saramago
Companhia das Letras

O estilo provocador e irônico de Saramago em sua força total, nesta interpretação "herege" do principal personagem do relato bíblico sobre o início das coisas.
Como sempre, Saramago está "impecável", ao menos na escrita.





A cidade do sol
Khaled Hosseini

Um livro fantástico, que narra a história de duas mulheres afegãs marcadas pela brutalidade de sua cultura, em meio ao sofrimento de um país em guerra.



O livreiro de Cabul
Asne Seierstad
Ed. Record

Livro escrito por uma jornalista correspondente de guerra que trabalhou no Afeganistão. Após a queda do regime Talibã, ela morou durante três meses na casa de um livreiro em Cabul, e o livro surgiu a partir desta experiência. Muito interessante para conhecer as condições das famílias e especialmente das mulheres afegãs que vivem sob o fundamentalismo islâmico.


Comédias Brasileiras de Verão
Luis Fernando Veríssimo
Ed. Objetiva

Uma coleção de impagáveis crônicas tendo como pano de fundo as famílias brasileiras de classe média. Uma leitura irresistível que nos proporciona boas gargalhadas.







Hipnotizando Maria
Richard Bach
Integrare Editora

Este foi o pior livro que li este ano. Fui até ele com grande expectativa, por ter sido escrito pelo mesmo autor de Fernão Capelo Gaivota, pensando encontrar outra bela história, e deparei-me com o que há de pior na linha da auto-ajuda, bem ao estilo "O Segredo". Não recomendo.






Like a Rolling Stone
Greil Markus
Companhia das Letras

Só mesmo Bob Dylan para inspirar um escritor a escrever a "biografia" de uma canção. Recomendadíssimo para quem quer conhecer os bastidores da música Like a rolling stone, e o alcance que ela teve na história contemporânea.







Múltipla Escolha
Lya Luft
Ed Record

O livro é bom, talvez um pouco repetitivo para quem já está acostumado a ler as obras da autora. Mas tem boas reflexões sobre a vida que valem a pena a leitura.




Memórias de minhas putas tristes
Gabriel Garcia Márquez

Para quem trabalha com o combate à pedofilia e à prostituição infantil, este pode ser um livro angustiante. Apesar de muito bem escrito - afinal, trata-se de Garcia Márquez, não consegui gostar da história de um velho jornalista que, para comemorar seus 90 anos, pede à uma amiga cafetina para lhe arranjar uma menina para passar uma "noite de amor louco com uma adolescente virgem.
A bem da verdade, o ato com a menina de 14 anos não se consuma, e talvez a idéia seja a de fazer uma metáfora sobre o amor verdadeiro ou puro, sei lá. Só sei que não consegui alcançar o espírito da coisa.
Entretanto, ler o autor de Cem Anos de Solidão é sempre uma experiência que vale a pena.


O cachorro que jogava na ponta esquerda
Luis Fernando Veríssimo
Ed. Rocco

Uma pequena e hilária história de um grupo de crianças que adoravam jogar pelada na rua, acompanhadas por um cachorro que acabou se transformando no craque do time.






Como sobreviver à própria família
Mony Elkaim
Integrare Editora

O curioso e irônico título do livro já dá uma dica do que vamos encontrar nesta obra do terapeuta belga Mony Elkaim. Aproveitando-se de histórias de consultório, cada capítulo é uma excelente reflexão sobre as dinamicas psicológicas que se estabelecem nas nossa famílias. Recomendo a todos que algum dia, em algum momento de suas vidas, já se fizeram a pergunta do título.




O menino do pijama listrado
John Boyne
Cia das Letras

Se tivesse que classificar, é bem provável que este seria escolhido o melhor livro que li neste ano até agora. Fiquei fã de carteirinha de John Brown, uma cara de 37 anos que teve uma grande sacada nesta história. E o segredo é não falar nada sobre o livro para não perder a graça. Sugiro inclusive não ler nem a orelha do livro. Emocionante e imperdível.




Os Espiões
Luis Fernando Veríssimo
Ed. Alfaguara Brasil

O bom humor já conhecido de todos nós, numa história de espionagem que tem como cenário o interior do Rio Grande do Sul. Diversão na certa.







O segredo do Genesis
Tom Knox
Bertrand Editora

Um thriller na linha de O código da Vinci e O símbolo perdido, bem ao estilo Dan Brown. É uma boa diversão.






A Humilhação
Philip Roth
Ed. Companhia das Letras

Philip Roth é impressionante. Através da história de Simon Axler, um ator em crise que perdeu sua auto-confiança para interpretar, Roth penetra - novamente - no mundo psicológico que nos é tão conhecido, com nossas crises, expectativas, insanidades e desejos. Um livro de narrativa rápida que nos prende por inteiro.




Os viúvos
Mário Prata
Ed. Leya Brasil

Mais um fera da Crônica Brasileira, Mario Prata traz neste livro uma hilariante história policial ambientada em Florianópolis, cidade em que está morando desde 2000. A trama foi criada a partir de um episódio real no qual o autor se viu em apuros com a Receita Federal. Para "exorcizar" seu "trauma" e dar uma espetada bem humorada no sistema de impostos no Brasil, nasceu a história deste livro. Muitos risos do início ao fim.


Do Universo à jabuticaba
Rubem Alves
Ed. Planeta

Este livro é a continuação do "Ostra feliz não faz pérola", em que Rubem reúne textos curtos e pensamentos breves sobre vários temas do dia-a-dia, como sexo, morte, infância, velhice. Muito agradável de ler, é daqueles livros que dá vontade de sublinhar tudo.

Conversa sobre o tempo
L. F. Veríssimo e Zuenir Ventura / Arthur Dapieve
Editora Agir

O livro é um registro escrito de um fim de semana de muita conversa entre  Veríssimo e Ventura, mediados pelo escritor Arthur Dapieve. O resultado é um delicioso bate-papo sobre vários temas do cotidiano, recheado de relatos pessoais de cada um. 



Eu Sou Ozzy
Ozzy Ousborne
Editora Benvira

O jeito divertido e cheio de sacadas engraçadíssimas com que Ozzy conta sua história acaba sendo uma maneira leve de relatar todo o sofrimento e a luta deste astro do Rock contra os vícios que dominaram toda a sua vida.  

O garoto no convés
John Boyne
Companhia das Letras

A fórmula é a mesma do livro anterior, O menino de pijamas listrados: um personagem fictício envolvido em algum fato histórico, a fim de narrar este acontecimento sob um outro ponto de vista. Desta vez, o episódio em questão é o motim do HMS Bounty, navio inglês que voltava de uma missao no Taiti, e cuja tripulação se revoltou, abandonando o Capitão e alguns fiéis em um barco em pleno alto-mar. A história é narrada sob o ponto de vista de um adolescente que estava no navio para livrar-se de uma pena por roubo em sua cidade natal.

A menina que roubava livros
Markus Zusak
Ed. Intrínseca

Linda e emocionante história de uma menina que viveu na Alemanha nazista e acompanhou de perto toda a tragédia da guerra sobre as família, inclusive a sua. Detalhe: a história é narrada pela própria Morte, que se deliciava com os acontecimentos relatados.


Indignação
Philip Roth
Companhia das Letras


Um excelente conto psicológico. Um jovem em busca de seu próprio caminho, tentando se emancipar de sua família super protetora e envolvendo-se nas mais diversas experiências. Roth escreve de uma maneira que nos prende do iníco ao fim da história.

sábado, 28 de agosto de 2010

Mary & Max

Sinopse:
Uma história de amizade entre duas pessoas muito diferentes: Mary Dinkle, uma menina gordinha e solitária, de oito anos, que vive nos subúrbios de Melbourne, e Max Horovitz, um homem de 44 anos, obeso e judeu que vive com Síndrome de Asperger no caos de Nova York. 
Alcançando 20 anos e 2 continentes, a amizade de Mary e Max sobrevive muito além dos altos e baixos da vida. 
Mary e Max é viagem que explora a amizade, o autismo, o alcoolismo, de onde vêm os bebês, a obesidade, a cleptomania, a diferença sexual, a confiança, diferenças religiosas e muito mais. 
Dos criadores do vencedor do Oscar de curta de animação Harvie Krumpet.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Meu desejo a cada colega psicólogo:

Que seja mais normal e menos guru,

mais gente e menos salvador,

mais curioso e menos respondedor,

mais ouvinte e menos professor,

mais humano e menos perfeito,

mais conversador e menos mentor,

mais leve e menos severo consigo mesmo.

Nossos consultantes vão nos agradecer por isso.


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Compreensão Sistêmica da Dinâmica Familiar

Uso o post de hoje para divulgar o curso que será oferecido pelo Familiare Instituto Sistêmico.

Destinado a psicólogos, estudantes de Psicologia e demais profissionais da área da Saúde, o curso Compreensão Sistêmica da Dinâmica Familiar apresentará os principais conceitos do Pensamento Sistêmico que contribuem para uma compreensão mais ampla sobre o funcionamento e a dinâmica das famílias.

Por ser um curso oferecido a um pequeno grupo (as vagas são limitadas), os encontros transformam-se em importante forum de discussão e troca de idéias sobre a aplicação desses conceitos nos diversos contextos de intervenção familiar.

Nesta edição 2010, o curso será ministrado pelos psicólogos Denise Duque, João David Mendonça, Maria Aparecida Crepaldi e Sônia Lima. Este é o quarto ano consecutivo que o curso é oferecido.

Abaixo, o flyer com todas as informações (clique na imagem para ampliar). Para outros detalhes, você pode acessar o website do Familiare ou telefonar direto para lá - 3233-4635.

Atenção: o curso será às quintas feiras, e não às quartas, como estava no cartaz divulgado ontem.


terça-feira, 3 de agosto de 2010

La teta

Video promocional realizado em Puerto Rico, para estimular a amamentação prolongada. A canção se chama "Duerme Negrito", interpretada por Mercedes Sosa.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Volta às aulas

Ontem conversei por telefone com a jornalista Clarissa Passos, do Portal IG. Ela estava fazendo uma matéria sobre as crianças que têm dificuldade em voltar às aulas após o período de férias. Gostei bastante do texto, que foi publicado hoje no portal. Para ler a reportagem, basta clicar no link abaixo.

Meu filho não quer voltar às aulas, e agora?


sábado, 10 de julho de 2010

Alienação Parental

Entrevista que dei hoje à noite ao programa Show da Notícia, da Rádio CBN, sobre a aprovação no Senado do projeto que pretende coibir atos de alienação parental.



Para quem tem interesse no assunto, clique aqui para ler uma outra entrevista que dei no ano passado sobre este mesmo tema, ao jornalista Eduardo Oliveira, da Globo.com.


sexta-feira, 2 de julho de 2010

RBS, Colégio Catarinense e o território livre da internet

O episódio do abuso sexual cometido por três garotos de classe alta em Florianópolis, entre eles o filho de um diretor da RBS em Florianópolis, requer de nós um olhar bastante cuidadoso e algumas reflexões.

A facilidade com que as pessoas repassam as informações sem ao menos checar a sua veracidade é impressionante. Desde a primeira vez em que recebi o e-mail relatando o ocorrido, já era fácil perceber que aquela carta de um suposto grupo de mães do Colégio Catarinense tinha um quê de fantasioso e rancoroso, como se seu autor estivesse mais interessado em vomitar seu ódio contra o referido Colégio do que expressar efetivamente o seu repúdio ao terrível ato do abuso cometido pelos jovens.

Mas o território livre da internet não quer saber o que é verdade, o que é falso. Ele apenas quer ampliar seu limites, espalhar-se como um virus incontrolável, atingindo a todos os envolvidos, sejam eles culpados ou inocentes. E conta com a colaboração ingênua da maioria dos internautas, que geralmente replicam e-mails sem uma simples averiguação.

De nada adiantou uma nota do Colégio Catarinense afirmando que os garotos nem eram alunos da instituição. Quem repassou o primeiro e-mail, muito mais bombástico, dificilmente encaminhará para sua lista de endereços a mensagem que tenta recolocar no lugar algumas verdades. Tarde demais, o estrago já está feito. Para alegria de quem deu o primeiro tiro.

Por outro lado, não podemos deixar de notar também o papel importante dos blogs e meios eletrônicos num Estado em que infelizmente o poder da mídia é concentrado apenas em uma empresa, no caso a RBS. Em outras épocas, pré-internet, provavelmente ninguém teria tomado conhecimento do ocorrido. Com a internet, a conhecida "operação abafa" já não é tão bem sucedida como antigamente.

Neste sentido, a internet então pode ter um duplo e contraditório papel: ser um terreno fértil para o plantio de falsas denúncias com efeitos devastadores, ou um espaço que pode nos salvar da hegemonia de grupos midiáticos poderosos que escolhem quais notícias podem ou não podem chegar até a população.

Mas atenção: se não podemos condenar o Catarinense neste caso específico, pois esses garotos poderiam sim ser de qualquer colégio, particular ou público, não podemos tampouco ignorar a crueldade e repugnância do abuso cometido por estes rapazes, exemplos perfeitos de uma sociedade adoecida, reflexos de uma forte crise de valores pela qual passam as famílias dos tempos atuais. Crise que, para o adolescente, se manifesta no desrespeito ao outro, no desrespeito ao corpo do outro, e no desrespeito ao seu próprio corpo e a si mesmo. 

Merecem sim a justa condenação, não por serem filhos de quem são, mas pelos criminosos atos cometidos.

Diante de um caso tão horroroso como esse, alguns pensamentos me vem à mente:

. A menina vitimizada, juntamente com sua família, precisa de um delicado tratamento psico-emocional, que lhes traga fortalecimento para superar os efeitos de toda esta brutalidade vivenciada;

. Estes garotos, paralelamente às justas condenações que esperamos possam vir sobre eles, necessitam também de uma intervenção psicológica, seja para compreender o que os levou a chegar ao ponto de cometer tais atos, seja como uma forma de trabalhar preventivamente para que eles não voltem a ocorrer;

. A RBS, sempre tão impiedosa nas divulgações dos escândalos, agora bebe de seu próprio veneno, e seu comentarista que fica na hora do almoço despejando pela televisão suas técnicas educacionais na base da porrada, soltando impropérios e esmurrando a mesa com sua cara de homem irrepreensível, desta vez não se manifestou nem chamou os meninos pra "sua delegacia";

. Algumas pessoas estão se aproveitando da tragédia vivida pela menina e sua família para manifestar seu ódio classista e elegeram o Colégio Catarinense como vilão desta história, misturando propositalmente fatos reais com mentiras;

. Já que neste caso não é possível haver uma comoção popular midiática, pois geralmente é a própria RBS/Globo que fomenta este tipo de reação na população, a tal comoção está vindo pela internet - uma "comoção virtual", com os blogs replicando informações, denúncias, opiniões, verdades e falsidades. 

É lamentável que histórias como esta aconteçam em nossa cidade, você não acha?


terça-feira, 29 de junho de 2010

Criança, a alma do negócio

Vale a pena tirar um tempinho e assistir a este documentário.



As outras partes do documentário vc pode ver clicando aqui

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Pessoas resolvidas

Conversa na recepção: Conversa vai, conversa vem, digo que sou psicanalista. A moça entra em pânico, temerosa de que eu tivesse poderes para ver a sua alma. "Eu já fiz terapia", ela disse. "Mas agora estou resolvida". Pergunto: "Quando se deu o óbito?". Ela me olha sem entender. Óbito? Explico: as únicas pessoas resolvidas que conheço estão no cemitério.
Extraído do novo livro do Rubem Alves, "Do universo à jabuticaba" (Ed. Planeta)


terça-feira, 22 de junho de 2010

À deriva


Seria difícil conceber castigo mais demoníaco, pudesse uma tal coisa ser posta em prática, do que abandonar uma pessoa à deriva na sociedade por forma a passar despercebida a todos os seus membros. Se ninguém se voltasse para nós ao ver-nos entrar em casa, se ninguém nos respondesse quando nós falássemos, ou se preocupasse com o que fizéssemos, mas se toda a gente que conhecêssemos nos "desligasse do mundo" e agisse como se fôssemos entidades inexistentes, não tardaríamos a ser tomados de uma espécie de desespero de raiva e impotência, de que a mais cruel das torturas corporais seria um alívio.
William James (1842-1910), filósofo e psicólogo


segunda-feira, 21 de junho de 2010

A menina que detestava livros


O curta que você verá abaixo é baseado no livro de estréia da indiana Manjusha Pawagi, "A Menina que Detestava Livros", uma deliciosa metáfora sobre a descoberta do prazer da leitura.
Posso dar uma sugestão? mostre este video pras crianças da sua família, pois é um belo estímulo à prática da leitura.

domingo, 20 de junho de 2010

Conversando sobre a morte - Parte 2

Anotações importantes para quem vivencia experiências de morte na família:

  •  A vontade de "parar o tempo" e a sensação de que "a vida acabou" são comuns ao momento da perda. Tristeza, culpa, dor, sensação de vazio, e muitos outros sentimentos vêm à tona, e precisam ser vivenciados. O processo de luto leva tempo, e a reorganização pessoal e familiar se dá lentamente, sem fórmulas mágicas. 
  • A procura por auxílio profissional é importante no processo de aceitação da perda. Falar sobre a dor com alguém de fora da família é benéfico, e serve como uma espécie de ritual para aliviar o sofrimento.
  • Os rituais de luto são uma importante maneira de elaborar a perda, facilitando a expressão da dor. Isto também vale para as crianças, que devem ser autorizadas a participar de tudo o que queiram. 
  • Na medida do possível, voltar à rotina aos poucos ajudará a restabelecer as atividades do cotidiano – escola, trabalho, convívio social. Apesar do impacto inicial, que desestabiliza o sistema, tais atividades não devem ser paralisadas por tempo prolongado. 
  • Falar sobre a morte e chorar sempre que tiver vontade ajuda. "Engolir o choro" ou "ser forte" neste momento não ajuda muito. O luto é elaborado na medida em que se entra em contato com a dor. 
  • Fazer visitas ao cemitério, escrever cartas, ver fotografias, são atitudes que podem contribuir para uma maior assimilação da perda. Muitas vezes é necessário que haja um tempo de readaptação até ser possível realizar tais atos. 
  • O sentimento de culpa é muito comum em casos de suicídio ou acidentes. Há uma forte sensação de que se poderia ter feito algo para evitar (fantasia de onipotência). Esse pensamento impede que se viva a realidade da perda. A culpa é, em certa medida, uma forma de fugir da dor. 
  • Respeitar os limites pessoais no processo de luto. Cada pessoa é diferente, e possui maneiras e recursos diferentes para lidar com a dor. O tempo de cada um também é diferente. 
  • Envolvimento em novas atividades. Alguns se aproximam da religião, outros envolvem-se em causas, ou dedicam-se ao esporte ou atividades artísticas. Desde que isto não seja apenas uma fuga para negar a dor, pode ser bastante benéfico para não ficar paralisado por ela. 
  • É importante não esconder as circunstâncias ou causas da morte, às vezes envolvidas por tabus e preconceitos. Quando há segredos, as pessoas, além de criar explicações fantasiosas sobre a perda, correm o risco de repetir a história e entrar numa ciranda de perdas sucessivas. 
  • Assistir filmes ou ler livros que tratam do tema da morte também pode ajudar no processo de assimilação. 
  • É importante questionar o impulso de realizar mudanças bruscas imediatas, como mudança de casa ou de cidade. As mudanças que o episódio da morte traz à família já são, em si, difíceis. É preferível, na maioria dos casos, esperar passar um tempo para decisões importantes que envolvam outras perdas. 
  • É importante ficar atento para não esquecer ou rejeitar os familiares ainda vivos (outros filhos, por exemplo). Muitas vezes frases do tipo "não tenho mais razão pra viver" não permitem que se perceba a existência e continuidade da vida dos que estão vivos.

A primeira parte do artigo está aqui.

sábado, 19 de junho de 2010

Mais estranho que ficção

E se você descobrisse um dia que sua vida não é escrita por você, mas por outra pessoa, o que você faria? Harold Crick descobriu que era na verdade um personagem de um livro narrado por uma escritora, e que não era o autor da sua própria história.
Até que ele resolveu encarar esta situação, ir atrás dos seus sonhos e tomar a vida de volta em suas mãos.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Inclusão de links

Acrescentei na coluna lateral do blog alguns links para websites que considero relevantes:

Dulwich Centre é o centro localizado em Adelaide - Austrália, em que trabalhava Michael White.

Perspectivas Sistêmicas disponibiliza vários artigos on-line.

Também incluí mais dois sites relacionados às práticas narrativas, The Institute of Narrative Practice e Centre for Narrative Practice.

Além destes, coloquei o link para o website do Familiare Instituto Sistêmico de Florianópolis.

Quando você tiver um tempinho pra ficar navegando, vale a pena explorar cada website para descobrir muitas coisas interessantes neles.


quinta-feira, 17 de junho de 2010

Conversando sobre a morte

Certa manhã, quando eu estava ainda no início de minha vida profissional, fui chamado ao telefone. Do outro lado da linha uma pessoa solicitava ajuda terapêutica para lidar com o luto de seu filho que acabara de falecer.

Num primeiro instante, a possibilidade e o desejo de aprender mais se confundiam com os temores advindos da responsabilidade de poder ajudar uma família que estava passando por uma experiência tão difícil e delicada, como a morte de um filho.

Pude perceber que os sentimentos evocados em mim naquele momento eram também um reflexo de como a sociedade lida com o tema da morte. Os temores, as angústias, os receios, os medos, a falta de respostas, a ausência de palavras, a busca de explicações, a sensação de impotência, todo este “arsenal de sentimentos” faria parte, a partir de então, de uma longa jornada de luto ao lado de meu cliente.

Para todos nós, a experiência da morte é vivenciada como um momento de grande sofrimento, em que vem à tona uma gama de sentimentos como incredulidade, espanto, raiva, tristeza, pesar, desconsolo, impotência, vazio interior, futilidade, ansiedade, desespero, indignação. 

A perda de um ente querido modifica a estrutura familiar, e geralmente requer a reorganização do sistema como um todo. Portanto, é uma experiência que impõe desafios adaptativos para a família e cada um de seus membros individualmente. O luto, então, é visto como este período necessário, para recolocar em ordem a vida e reorganizar o sistema familiar.

Entretanto, tal reorganização não significa uma resolução, no sentido de aceitação completa e definitiva da perda, mas envolve a descoberta de maneiras de assimilá-la e seguir em frente com a vida. 

Talvez, um dos aspectos mais difíceis para a família no tempo de luto seja a comunicação intra-familiar, ou seja, a possibilidade de compartilhar abertamente sobre a experiência da morte. 

A dificuldade vem pelo fato de que a vivência familiar do luto, e a dor advinda desta vivência, muitas vezes acionam nos membros da família o desejo de proteger o outro membro de seu sofrimento, bem como proteger a si mesmo da ansiedade de ver o outro sofrer. 

A “saída” para este dilema passa a ser o silêncio e a tentativa de ocultar as emoções e reações emocionais, evitando tocar no assunto da morte. Porém, os efeitos desta postura são contrários ao que se deseja, pois a comunicação familiar fica prejudicada, alimentando fantasias secretas, num ambiente em que todos sofrem em silêncio e escondidos. 

O desafio então é buscar obter algum controle sobre suas próprias reações à ansiedade do outro, para abrir a possibilidade de se conversar sobre a morte e sobre a dor experimentada por cada um. Assim, neste sistema de relacionamento aberto, o indivíduo está livre para comunicar ao outro seus pensamentos internos, sentimentos, angústias e fantasias, possibilitando a construção de um ambiente propício a descobertas de novos caminhos para a reorganização familiar.

O processo de luto pode durar anos, durante os quais cada evento, estação, feriado e aniversário acionarão novamente a antiga sensação de perda. Enquanto este processo continua, a família vai se ajustando à ausência de seu membro morto. Os papéis e as tarefas são redistribuídos, novos relacionamentos são formados e as antigas alianças são transformadas. 

Eventualmente, chega um momento em que a maioria das famílias consegue, de forma geral, assimilar sua perda, embora o luto nunca seja totalmente terminado. Sempre haverá eventos que evocam lembranças da pessoa perdida, mas, com o tempo e a cicatrização, a dor se torna menos crua e intensa, liberando energia para outros relacionamentos e possibilitando a re-incorporação da pessoa que morreu sob uma nova perspectiva na história familiar. Afinal, quando um membro da família morre, o relacionamento com esse membro não morre, nem tampouco a sua história.

Lidar com a morte e o luto envolve um processo, sem fórmulas mágicas e prontas. Cada experiência de perda é única, assim como são únicos os passos e desafios necessários para a elaboração de cada uma destas experiências. É uma jornada caracterizada por uma complexidade emocional e relacional, que nos remete à finitude da existência humana, e nos convida a posicionar a morte como parte inexorável da vida. 


BIBLIOGRAFIA:

BOWEN, Murray. A reação da família à morte. In WALSH, Froma. & MC. GOLDRICK, Monica. Morte na família: sobrevivendo às perdas. Porto Alegre: ArtMed, 1998.
WHITE, Michael. “Saying hullo again: the incorporation of the lost relationship in the resolution of grief”. In Selected Papers. Adelaide, Australia: Dulwich Centre Publications, 1988.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Como sobreviver à própria família



Reproduzo abaixo a Introdução deste excelente livro do terapeuta familiar Mony Elkaim.


Quem nunca se sentiu, em algum momento, preso na própria família? Quem nunca teve a impressão de ser esmagado por uma realidade sobre a qual não podia influir? Desejo que esta obra esclareça essas situações familiares, que todos conhecemos, com uma luz diferente da que estamos acostumados. Na maioria das vezes, não é a realidade em si que nos prepara uma armadilha e sim uma representação dessa realidade construída com o passar dos anos e dos acontecimentos. Como vamos ver, cada um desempenha um papel bem específico no roteiro familiar e a distribuição desses papéis, em geral, é feita à revelia de todos. A armadilha se fecha, um sistema rígido se instala e todos se sentem prisioneiros. Alguns membros da família sofrem, sintomas aparecem...


Ao descrever e comentar as situações, das quais a maior parte diz respeito à nossa vida cotidiana, tentei oferecer ao leitor uma forma de perceber o que lhe acontece; tentei mostrar de que maneira participa delas sem querer, e como, para sair desse círculo vicioso no qual está preso com os parentes, ele pode conseguir delimitar o seu território, fazendo com que seja respeitado pelas pessoas que o cercam - sem provocar hostilidade, mas, ao contrário, conseguir aliados e não adversários.

Sobreviver à própria família passa a ser, então, sobreviver à idéia que fazemos dela. Como os membros da minha família, a cultura na qual cresci, meus relacionamentos sociais, a mídia, me constroem, me esculpem, limitando a minha capacidade de mudança ou de adaptação? Por que me sinto preso na minha realidade familiar? Será que não participo, contra a minha vontade, da escultura de uma situação que, forçosamente, é mútua?

Desde o meu nascimento, estou preso num contexto: a maneira como fui esperado, olhado, o nome que recebi e muitos outros elementos constituem um ambiente de regras e mitos, criado e compartilhado entre os membros da família, cuja coesão e permanência ela garante. Desde que cheguei ao mundo, participo desse universo cuja estrutura também manterei. À medida que vou crescendo, os mitos e as regras da minha família não poderão mais ser diferenciados da maneira como eu os percebo e como me situo em relação a eles. A partir de então, torno-me ator da peça que representamos juntos: como vou me dar o direito de ser suficientemente "desleal" em relação àqueles que me cercam, ou à imagem que tenho deles, para ver minha família de um modo diferente do que eles a vêem - de um modo diferente do que eu também a vejo? Como abrir caminho fora das rotinas repetitivas e aparentemente inevitáveis nas quais nos atolamos de comum acordo?

Essas são as perguntas às quais este livro se esforça para responder. Evitando longas elaborações teóricas, me esforcei para comentar casos concretos e mostrar o ensinamento que podemos tirar deles.

Aqui vão algumas explicações. Em primeiro lugar, foi impossível ser exaustivo. Diante da imensa e complexa paisagem das situações familiares, precisei fazer uma escolha. Porém, como veremos, muitos dos princípios evidenciados num caso também valem para outros e trata-se mais de compreender a natureza do que podemos fazer e não de aplicar receitas mecanicamente. Em segundo lugar, esses princípios, válidos na maioria das situações da vida cotidiana, não funcionam da mesma maneira em contextos de abuso e violência em que devemos, antes de tudo, nos proteger, nem em casos graves em que uma ajuda medicamentosa e, se necessário, uma hospitalização devem completar a psicoterapia. Finalmente, eles não são dirigidos especificamente aos filhos, nem aos pais, pois todos estamos envolvidos em relações cujas tensões incessantes só poderemos evitar se aceitarmos reconhecer o papel que nós mesmos desempenhamos nelas. Como este livro vai mostrar, assim espero, é a conquista da nossa capacidade em modificar as regras do sistema em que vivemos que permitirá a todos os membros da família terem acesso à mudança. Assim é que os vínculos que me unem aos outros, lugares e causas do meu sofrimento, podem ser os próprios caminhos da minha libertação e da deles.

Mony Elkaim
Como Sobreviver à própria família
São Paulo: Integrare Editora, 2008





quarta-feira, 9 de junho de 2010

Encontro de gerações

A família é um sistema dinâmico e relacional, em que várias pessoas compartilham experiências entre si, ao mesmo tempo em que vivem, individualmente, experiências diferentes. Ou seja, numa mesma família, numa mesma circunstância, cada membro está vivenciando algum momento específico e único de sua existência. 

Para exemplificar, vamos pensar numa família em que acabou de ocorrer o nascimento do segundo filho. A criança que acabou de nascer está vivendo sua primeira infância. O seu irmão mais velho, de 13 anos, começa a experimentar o desafio de sair de sua própria infância e entrar num mundo novo de novas descobertas: a adolescência.

Os pais que, até então, eram pais de filho pequeno, agora passam a ser pais de filho adolescente e têm que lidar com as suas demandas emocionais e sociais, ao mesmo tempo em que, com o nascimento do bebê, voltam a re-experimentar o gosto de serem pais de um recém-nascido. 

Além disso, esses mesmos pais também são filhos, pois ainda se relacionam com seus próprios pais, visitando-os regularmente, e tendo uma convivência de proximidade com eles. Estes, por sua vez, estão vivenciando neste momento a experiência de serem avós pela segunda vez, mas pela primeira vez serão avós de um neto adolescente. E é melhor parar por aqui senão vai ficar cada vez mais complicado de entender.

Este exemplo, se não deu um nó na cabeça do leitor, pode ajudar a entender o que estou querendo dizer com “sistema dinâmico e relacional”.

A família, então, pode ser vista como um sistema que se move através do tempo, em que a cada estágio do ciclo de vida, os papéis e funções de cada membro vão se configurando, e se modificando, formando uma espiral trans-geracional, com filhos, pais, avós, às vezes bisavós, todos mergulhados numa complexa teia de relações.

Quando pensamos nos relacionamentos entre as gerações, temos que nos lembrar desta dinâmica, para não perdermos de vista esta complexidade que envolve a família e seus relacionamentos.

Quando pessoas de diferentes gerações se relacionam entre si, é natural que as diferenças de idéias, pensamentos, valores, comportamentos, venham a aparecer. Tais diferenças geram conflitos. E muitas vezes não há como evitar o conflito entre estas gerações. Entretanto, o conflito no convívio familiar também pode ser compreendido como uma crise saudável, capaz de proporcionar crescimento. É no conflito que também novas formas de pensar e  agir podem surgir, ampliando a experiência familiar.

Se o conflito é muitas vezes inevitável, então qual é a alternativa que temos? De que outras maneiras o conflito pode ser vivido, sem que ele se eternize, e passe a dominar a vida da família, como um ditador que não permite que seus membros vivam em paz? Quais os desafios enfrentados pelas famílias de hoje, para que possam lidar, de maneira menos conflituosa, com as diferenças entre as gerações? 

Sem acreditar em respostas simples, nem em fórmulas mágicas, quero sugerir três posturas que podem ser exercitadas e buscadas no contexto familiar:

Negociação. É importante que a família exercite a capacidade de negociar conflitos, com respeito mútuo pelas diferenças de cada um. Numa família, os diferentes momentos do ciclo de vida pelos quais passa cada membro fazem com que as necessidades sejam diferentes. Além disso, a visão de mundo, a linguagem, as experiências, tudo isto vai mudando na medida em que novas situações emergem na história da família. Isto requer de cada membro a possibilidade de permitir que opiniões divergentes possam ser manifestadas e as regras vigentes negociadas.

Flexibilidade. Em cada família há determinadas regras, as quais funcionam bem em determinados momentos. Porém, outros contextos podem exigir uma reavaliação destas regras. A capacidade da família de ser flexível diante de situações novas pode facilitar a boa convivência entre as gerações, na medida em que permite ajustar-se às mudanças de maneira mais maleável. Famílias em que há uma rigidez muito forte tendem a ter mais dificuldades de adaptação a uma nova situação, elevando os níveis de stress e conflitos entre seus membros.

Estabelecimento de fronteiras e funções. O medo de repetir o padrão antigo de autoritarismo e intolerância dentro das famílias empurrou a família moderna a um outro extremo, em que se perdeu a possibilidade de estabelecer limites e hierarquias que possam ajudar a família a exercer em seus membros um papel formador e estruturante. Em alguns ambientes familiares será necessário resgatar estes papéis, incluindo os direitos, deveres e as limitações próprias de cada função, de maneira que esteja claro para cada membro da família qual é o lugar de cada um neste sistema. Filhos são filhos, pais são pais, e avós são avós.

Estamos falando bastante sobre os conflitos nos relacionamentos entre as diferentes gerações, mas não podemos deixar também de falar das grandes oportunidades contidas nestas relações. Nem só de conflitos vivem as gerações. Há também aprendizado. Pais, filhos, e avós podem sim, experimentar um convívio de troca recíproca, na medida em que tomam consciência de suas diferenças, de suas limitações e de suas funções na família. 

Em um ambiente de negociação, flexibilidade, fronteiras claras e compreensão mútua é possível fazer da família um espaço de crescimento individual, de construção da identidade, e de diferenciação pessoal, enquanto as gerações vão se movendo através da vida. 

Penso que um dos desafios da família na atualidade consiste em tentar descobrir formas de diminuir as tensões existentes entre as gerações. Não se pode eliminar totalmente o conflito – ele é inevitável e faz parte do desenvolvimento familiar. Tampouco se deve negá-lo, como se num passe de mágica ele fosse deixar de existir. Mas talvez seja possível transformar o conflito em uma oportunidade de confluência, um ponto de encontro, e não desencontro, das distintas gerações.

BIBLIOGRAFIA:
Andolfi M., Angelo C., Menghi P. & Nicolo-Corigliano A.M. – Por trás da máscara familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
Bowen Murray. De la familia al individuo. Barcelona, Paidós, 1991.
Carter, B.; McGoldrick, M. As mudanças do ciclo de vida familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Adolescência: dilemas e oportunidades


O período da adolescência é marcado por uma série de profundas mudanças, que atingem não apenas o adolescente, mas toda a família envolvida no processo. Este período, geralmente concebido como sinônimo de crise, angústia, perturbação e turbulência, também pode ser uma oportunidade de crescimento, se observado numa perspectiva mais ampla, levando-se em conta a complexidade da vida familiar.

Se compreendermos a família como um sistema em constante transformação, entenderemos a adolescência como um momento especial que impulsionará a família na direção de novas configurações e novos padrões de interação. Sob o ponto de vista sistêmico, portanto, a adolescência caracteriza-se como um período de transformação e reorganização das relações familiares.

Mais do que uma experiência pessoal vivida por um determinado indivíduo, a adolescência é a experiência coletiva de uma família em transição e em interação.

Então, quando falamos de adolescência, falamos não apenas do adolescente, mas de todo o sistema familiar, pois o crescimento dos filhos pressupõe também o desenvolvimento dos pais diante desta nova realidade, assim como exige também um reposicionamento dos avós, irmãos mais velhos, irmãos mais novos, tios, etc.

E desta nova realidade resultam importantes mudanças, que fazem deste tempo um processo necessário no caminho da maturidade.

A autoridade unilateral até então exercida pelos pais sobre suas crianças desloca-se para uma autoridade mútua em que os adolescentes compartilham mais ativamente do processo de tomada de decisão, e passam a exercitar um aumento gradual de responsabilidade pessoal sobre si mesmos.

É neste momento que os processos de diferenciação pessoal ganham força, intensificando no adolescente a busca por uma identidade própria, autônoma, separada das identificações com os pais. Para isso, necessitam expressar suas críticas, assumir posturas, fazer escolhas, muitas vezes em oposição aos próprios pais.

É neste momento também que surgem com força total as ambivalências da adolescência: o desejo de crescer se funde com o desejo de continuar criança; o movimento de oposição aos pais se dá ao mesmo tempo em que buscam a confirmação paterna; ao lado do pedido de "não me incomode", vem a solicitação de "não me abandone"; enquanto dizem "sou dono do meu nariz" também pedem "fiquem de olho em mim"; ao mesmo tempo que suplicam por liberdade, demonstram que necessitam de limites claros.

Por sua vez, os pais, mergulhados neste mundo novo da adolescência de seus filhos, também vivenciam seus próprios dilemas, que os colocam em sentimentos paradoxais em relação a esta nova fase do ciclo de vida da família. Os sentimentos ambíguos não são apenas privilégio dos adolescentes. Os pais também vivem os seus, que podem ser exemplificados com a expressão: "que bom, meu filho está crescendo, que pena, meu filho está crescendo". Vivem o paradoxo de ver com alegria seu filho se independizando, ao mesmo tempo em que sentem o fato de não serem mais necessários da mesma maneira. Juntamente com a alegria de ver seus filhos tornando-se autônomos, rondam fantasmas de abandono e perda.

Entender os dilemas e paradoxos que se apresentam a cada um nesta fase certamente possibilitará uma maior compreensão dos sentimentos e emoções que tornam este período tão especial e misterioso.

Sob esta ótica, podemos nos arriscar a "despatologizar" o período da adolescência, comumente visto como um período de crise e turbulência, e pensá-lo como um tempo rico de transformação e reorganização familiar, de crescimento positivo e exploração criativa das possibilidades da família. Um tempo de novos desafios, na busca de uma comunicação saudável, de cuidado, de suporte e confiança mútuos. Um tempo de exercitar flexibilidade, e de encorajar o adolescente a se tornar um adulto autônomo e criativo.


BIBLIOGRAFIA:
CARTER, Beth; McGGOLDRICK, Monica. As mudanças no ciclo de vida familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
BATISTA NETO, Francisco; OSÓRIO, Luiz.C. Aprendendo a conviver com adolescentes. Florianópolis: Editora Insular, 2. ed. 2002.


Palavras que podem fazer diferença

Limites. Os adolescentes necessitam de regras apropriadas e limites claros. Em excesso, desestimularão o crescimento e a independência, mas a falta de limites e regras pode ser vivenciada pelo adolescente como desinteresse por ele.

Autonomia. Autonomia não é sinônimo de abandono. Os adolescentes precisam aprender a "caminhar com as próprias pernas", assumindo aos poucos novas responsabilidades.

Autoridade. Autoridade não é autoritarismo. Pais que exercem autoridade saudável contribuem para o equilíbrio emocional do adolescente. Porém, atitudes autoritárias só amplificam o problema.

Adaptação. Soluções que funcionavam no estágio anterior (infância) não necessariamente funcionarão no ciclo da adolescência. O desafio é adaptar-se e descobrir novas alternativas de resolução de conflitos. Para isso, é fundamental o exercício da flexibilidade.

Afetividade. Deixar a infância para trás não implica deixar o afeto no passado. Se não dá mais pra pegar no colo na frente dos coleguinhas (isso é “pagar mico!”), os pais podem descobrir novas maneiras de continuar mostrando amor e afeto.

Vida conjugal. A adolescência é uma oportunidade para os pais reinvestirem em sua relação conjugal, pois juntos poderão sentir-se mutuamente fortalecidos.