sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Pensamentos também engravidam

Hoje me veio uma idéia que certamente não é nova, mas que me fez ficar brincando com ela durante algumas horas, e que agora compartilho com vocês:

Pensamentos também ficam grávidos.

A gente vai pensando, as idéias vão chegando, e em algum momento nasce uma iniciativa.

Diferente dos humanos, que em geral levam nove meses de gestação, os pensamentos não têm data para ser paridos. Eles ficam ali, amadurecendo, germinando, sem se importar com o tempo. Às vezes, uma iniciativa nasce após duas semanas de gestação, outras vezes leva dois anos.

No meu dia-a-dia como terapeuta, converso com muitas pessoas cujos pensamentos estão grávidos, à espera de uma boa hora para dar à luz. Nossas conversações terapêuticas são como um exame de ultrassom, no qual podemos ver como eles estão crescendo, que rumo estão tomando, como vão se transformando a cada dia.

O fascinante na terapia é observar estas gestações de idéias e reflexões que se transformam em iniciativas e ações.

Como é admirável ser testemunha das mudanças nascidas da gestação dos pensamentos...


sábado, 21 de janeiro de 2012

Aos visitantes e amigos

Muitas pessoas chegam a este blog através do sistema de busca no Google. Nestas últimas semanas a palavra digitada que mais trouxe visitas ao blog é "palmadas".

Isto me faz pensar que os visitantes que passam por aqui estão interessados em temas associados à educação dos filhos.

Obviamente, não tenho resposta para todos os dilemas, tampouco sou portador de alguma verdade inquestionável. Não faço idéia de quantos se sentem ajudados, ou quantos discordam do que ando escrevendo por aqui.

Mas como psicólogo atuando na área de família e casais, fico muito satisfeito em poder fazer deste blog um espaço possível para o fomento de idéias.

Você que chegou até aqui, não precisa concordar com as minhas opiniões, e eu não preciso tentar convencê-lo a adotá-las como suas. Apenas podemos usufruir da nossa liberdade para expressá-las.

E seja muito bem vindo!

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A Globo me venceu

Não tenho nada contra quem acompanha o BBB, cada um faz com sua mente o que bem entender. Eu não acompanho, foi uma decisão minha e da minha esposa não permitir que esse lixo - na nossa opinião - entre em nossa casa. Por não assistir e não ver valor algum neste tipo de entretenimento, não tenho nenhum interesse em saber o que se passa naquela casa que não faz parte da minha casa, tampouco tecer comentários e opiniões sobre o que acontece com os "heróis" confinados.

Mas a Globo me venceu, e cá estou eu lendo sobre o caso de abuso ocorrido numa dessas noites de bebedeira que recheiam a programação dos brothers lá dentro e hipnotizam os que ficam espiando aqui de fora. Tudo feito debaixo dos olhos do Grande Irmão, com a permissão dos participantes e com a bênção de milhões de espectadores excitados por um voyeurismo que me deixa assustado.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

As palmadas e as nossas imperfeições

Nenhum pai é perfeito. Pais são humanos, e humanos não são robôs. Têm emoções, perdem a paciência, ficam cansados, frustram-se, sentem-se perdidos algumas vezes e não possuem respostas para todas as circunstâncias. Ser pai e ser mãe é um processo de constante aprendizado.

Inicio o texto com estas idéias para conversar com você sobre o uso da palmada na educação dos filhos, conversa motivada pela lei contra a punição física que foi aprovada em dezembro pela Câmara dos Deputados.

Apesar da controvérsia em torno da sua aplicação, proponho uma reflexão baseada no princípio que está por trás desta lei: a punição física como meio inadequado de educação.

Palmadas, tapinhas na bunda, chineladas, têm sido práticas “pedagógicas” culturalmente enraizadas em nosso país, sendo inclusive associadas à noção de disciplina, como se o ato de bater numa criança sustentasse em si próprio um poder mágico para instaurar autoridade e correção de conduta.

Porém, estudos tem demonstrado que o uso da palmada promove um impacto negativo no processo de desenvolvimento psicológico da criança, e muitos pais e educadores ficarão surpresos ao saber que a sua intenção pedagógica tem em si um efeito inversamente proporcional. A palmada pode resolver um problema imediato, mas cria um problema maior que vai se estendendo silenciosamente, moldando a identidade e a personalidade da criança.

A idéia da palmada associada à disciplina desconsidera o fato de que há muitas outras maneiras de se disciplinar uma criança sem erguer uma vara, um chinelo ou uma mão sobre ela. “Disciplina” não é sinônimo de “punição física”, assim como “dar limites” não tem o mesmo significado de “bater”.

Negar-se a usar a política da palmada não é negar-se a educar, a disciplinar ou a impor limites tão necessários na formação da criança, muito menos colocar em risco a posição de autoridade parental. É, ao contrário, a tentativa de constituir uma configuração relacional que seja diferente do modo vigente em nosso mundo já tão repleto de maus tratos, opressão e injustiça.

É fácil? Não, não é nada fácil.

Certamente o caminho sem palmadas e varinhas é bem mais difícil. Exige dos pais muito mais tempo, paciência, sabedoria, auto-controle, e especialmente o exercício de seus próprios limites para não “perder as estribeiras”. Afinal, como um pai pode ensinar limites a um filho, se ele mesmo não consegue controlar os seus próprios limites em um momento de contrariedade?

A educação pela paz é muito mais que uma regra de conduta; é uma postura. Se é uma postura, quando nos conduzimos de maneira equivocada, podemos percebê-la e imediatamente retomar o rumo. Se num lampejo de imperfeição, comum a todos nós pais, e dominados pela irritação ou fúria, apelamos para algum tipo de punição física, é possível restabelecer a consciência de que este não é o modo preferível de nos relacionarmos com nossos filhos. Se errarmos, restará a nós o desafio de levantar a cabeça e continuar lutando para manter nossa postura de não violência, especialmente porque queremos o bem de nossas crianças.

Afinal de contas, a sociedade já conseguiu proibir os escravos de apanhar, já criou leis rigorosas para defender as mulheres, já não bate mais nos seus "loucos", já criou instituições de defesas dos índios, já considera crime a tortura de prisioneiros, já luta contra o mau trato aos animais. Apenas as crianças ainda apanham com o consentimento social. Não é estranho isso?


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

44 anos


Mil novecentos e sessenta e oito.

Ano de endurecimento da ditadura no Brasil, culminando no Ato Institucional número 5 (o famoso AI-5), em dezembro, pela canetada do então presidente Costa e Silva.

No Rio de Janeiro, meses antes, em junho, era realizada a Passeata dos Cem Mil, em protesto contra a ditadura militar.

Caetano Veloso era vaiado durante apresentação no Festival Internacional da Canção, em um protesto do público contra a música "É Proibido Proibir".

Nos Estados Unidos, o pastor batista Martin Luther King, líder da luta pelos direitos civis e da resistência não violenta contra a opressão racial, era assassinado em 04 de abril.

Na França, estudantes e trabalhadores realizam um histórico protesto, que ficou conhecido como o Maio de 68.

Nos cinemas, Stanley Kubrick lançava o enigmático 2001, Uma Odisséia no Espaço, filme de ficção científica vencedor do Oscar de Efeitos Especiais.

Nas rádios, ouvia-se Geraldo Vandré cantando Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores, o Rei Roberto Carlos destilando seu "rock'n roll" Se Você Pensa, enquanto os Beatles psicodelizavam em The Fool on the Hill.

Bob Dylan lançava o álbum John Wesley Harding, com a clássica All Along The Watch Tower, e fazia, em janeiro, uma aparição no show em tributo a Woody Guthrie no Carniege Hall, dois anos após um acidente de moto que quase o matou.

Assim estava o mundo durante o meu primeiro ano de vida. Há quarenta e quatro anos. E eu estava ali, chegando, ainda alheio a tudo isto.

Fui conhecer estes fatos apenas muito tempo depois. Olhando hoje pelo retrovisor, especulo que são enredos e personagens que podem ajudar a entender a história de muita gente da minha geração. Incluindo a minha.


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Noah foge de casa

Sugestão de leitura:


Um menino de oito anos é o personagem desta história maravilhosa. Em sua inocência, acreditava que a melhor maneira de lidar com um problema é fugindo dele. Decidiu então fugir de casa, e numa cidadezinha próxima conheceu uma encantada loja de brinquedos e começou uma interessante conversa com o proprietário da loja.

Este é mais um livro de John Boyne em que não se pode falar muito a respeito, para que o leitor não perca as surpresas que vão se desenrolando enquanto a trama vai acontecendo.

O que dá para afirmar é que o livro é uma linda mensagem sobre como lidar com as dificuldades da vida e com o próprio envelhecimento. Ou seja, trata de temas que nós adultos, que já passamos dos oito anos há tempos, ainda temos muito a aprender. Portanto, é um livro para todos nós. Literatura infanto-juvenil para emocionar adultos. 

A seguir, um teaser do livro, em inglês.



John Boyne é também autor do genial "O menino do pijama listrado", e possui mais dois livros editados por aqui: "O Garoto do Convés", e "O Palácio de Inverno". Recomendo a leitura de todos eles.