quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O ponto de vista da criança

Li ontem e compartilho com os leitores do blog:

Uma história contada pela escritora americana Astrid Lindgren ilustra de maneira afetiva a irracionalidade do castigo físico e de como ele é visto pelos olhos de uma criança.

Certa vez, uma senhora contou que quando era jovem não acreditava no castigo físico como uma forma adequada de educar uma criança, apesar do pensamento comum da época incentivar o uso de um fino galho de árvore para corrigir a criança.

Um dia, o seu filho de 5 anos fez alguma coisa que ela considerou muito errada e, pela primeira vez, sentiu que deveria dar-lhe um castigo físico. Ela disse para ele que fosse até o quintal de sua casa e encontrasse uma varinha de árvore e trouxesse para que ela pudesse aplicar-lhe a punição.

O menino ficou um longo tempo fora de casa e quando voltou estava chorando e disse para a mãe: “Mãezinha, eu não consegui achar uma varinha, mas achei uma pedra que você pode jogar em mim”.

Imediatamente a mãe entendeu como a situação é sentida do ponto de vista de uma criança: se minha mãe quer bater em mim, não faz diferença como e com o quê; ela pode até fazê-lo com uma pedra.

A mãe pegou seu filho no colo e ambos choraram abraçados. Ela colocou aquela pedra em sua cozinha para lembrar sempre: nunca use violência.

[Extraído de artigo de Lidia Natalia Dobrianskyj Weber, "Relacionamento entre pais e filhos: entre tapas e beijos", Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Paraná.]


sábado, 24 de dezembro de 2011

Dados

Alguns dados de pesquisa para quem se interessar:

"Pesquisas realizadas com o objetivo de relacionar o recebimento de punição corporal com alguma variável comportamental da criança encontraram prejuízos para o desenvolvimento infantil: as crianças que apanhavam (comparadas com as que não apanhavam) apresentaram
auto-estima mais baixa (Larzelere, Klein, Schumm, & Alibrando, 1990),
comportamento mais agressivo (Stormshak, Bierman, McMahon, & Lengua, 2000; Strassberg, Dodge, Pettit, & Bates, 1994),
altos níveis de sintomas psiquiátricos e
baixo bem-estar geral (Bachar, Canetti, Bonne, DeNour, & Shaley, 1997)."

[L.N.D. Weber et al. "O uso de palmadas e surras como prática pedagógica", in Estudos de Psicologia 2004, 9(2), 227-237]


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O que se quer e o que se consegue

Esse Estado é um intrometido

Esse Estado é mesmo um intrometido!

Quero ter a minha liberdade para fumar, e o Estado me proíbe de acender meu cigarro em um monte de lugares. Insiste em tentar me convencer que fumar é prejudicial à saúde. Mas por que o Estado tem que interferir na minha saúde? Afinal, cabe apenas a mim a decisão de fazer o que eu quiser com meu corpo.

Dia desses o Estado inventou uma tal Lei Maria da Penha, só para se meter também na minha vida conjugal. Será que ele nunca ouviu falar que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher? Agora não posso nem dar uns tapas na minha patroa, e lá vem a Maria da Penha pegar no meu pé.

E tem mais. Quem o Estado está pensando que é quando interfere no que eu faço dentro do meu próprio carro, obrigando-me a usar cinto de segurança? Ameaça-me com multas se eu não obedecer esta lei horrorosa, restringindo a minha liberdade de andar sem estar preso a um acessório.

E essa você não vai acreditar: não satisfeito em sua mania de interferir na minha vida privada, ele resolveu me proibir de dirigir meu próprio veículo caso eu tenha ingerido um pouco de álcool. Todo cidadão de bem sabe que isto é intervenção do Estado, é um absurdo que precisa ser condenado por nós cidadãos do bem.

Agora, sabe da última dele? Quer se meter com as minhas crianças também!

Chega dessa interferência estatal na minha vida!!!


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Agora falando sério. Que bom seria se não fosse preciso elaborar leis para proibir pessoas de dirigir bêbadas, se não houvesse necessidade de leis para proteger as mulheres, que maravilha se as pessoas não jogassem fumaça no ar que eu respiro, se não existisse gente maltratando animais.

Mas infelizmente...


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Agradecimento e mais algumas idéias

Meu agradecimento a todos que têm participado e dado a sua contribuição ao debate que me propus a fazer a partir do meu blog e dos meus perfis no Facebook e Twitter.

Estou tendo alguma dificuldade para responder os vários emails que tenho recebido nestes últimos dias, mas na medida do possível vou respondendo a todos.

A bem da verdade, não tenho muito ânimo para ficar debatendo cada ponto de algumas mensagens, pois percebo que uma grande parte das pessoas que me escrevem não pretendem mudar suas posições, mas apenas querem ter o direito - legítimo, diga-se de passagem - de discordar ou me corrigir.

Fico feliz ao perceber que não estou sozinho em minhas idéias, e muito satisfeito quando vejo que no meio cristão, que foi meu alvo em um dos textos, também existem pessoas lutando para educar seus filhos impondo limites sem empregar o expediente da palmada, seja ela forte ou fraca.

Tenho recebido também algumas mensagens extremamente indelicadas e malcriadas, de pessoas cuja desqualificação da opinião alheia é seu único argumento. A estas não perco tempo em dar resposta, apenas as deleto.

Por último, preciso compartilhar com vocês que minha posição a respeito deste tema leva em consideração o fato de que nenhum pai é perfeito. Pais são humanos e humanos não são robôs. Têm emoções, perdem a paciência, ficam cansados, frustram-se.

A minha defesa contra a punição física não é uma condenação impiedosa e antecipada dos pais comuns, não é uma cobrança de perfeição sobre alguém que a cada dia está aprendendo a ser pai ou mãe.

A parentalidade é um aprendizado constante.

Quem me conhece pessoalmente, e especialmente todas as pessoas e famílias as quais tive ou tenho a honra de atender, sabem muito bem a minha rejeição a qualquer circunstância ou regra que nos coloque em cobranças e exigências que ficam acima de nossas possibilidades.

Entretanto, estou convicto de que a educação pela paz é muito mais que uma regra de conduta; é uma postura. Se é uma postura, quando nos conduzimos de maneira equivocada, podemos percebê-la e imediatamente retomar o rumo.

Sendo bem honesto comigo mesmo e com os leitores, não posso garantir que nunca darei uma palmada no meu filho que hoje tem 4 anos. Afinal, eu e minha esposa somos humanos e consequentemente suscetíveis a falhas e imperfeições. O fato dele nunca ter levado nenhuma palmada, tapinha, ou qualquer punição física até o momento não é garantia de que nunca cairemos na tentação de resolver alguma situação difícil com uma palmada.

Mas somos conscientes de que esta não será a conduta de nossa preferência. Se errarmos, nos restará o desafio de levantar a cabeça e continuar lutando para manter nossa postura de não violência, especialmente porque queremos o bem de nosso filho.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Sugestão de leitura: Autoridade sem violência


Uma ótima notícia! A editora Artesã republicou em 2011 o livro "Autoridade sem violência: o resgate da voz dos pais", de Haim Omer. Considero este livro um excelente material para pais, terapeutas e educadores em geral.

Aqui vai um trecho da introdução:

Quase todos aceitam que, para criarmos bem as crianças necessitamos de firmeza e amor. O problema é que esta mistura se desfaz quando a criança tem problemas de comportamento. Nessas situações, os pais tendem a ser ou amorosos ou rigorosos, ou, às vezes, oscilam entre os dois pólos.

E o mesmo fazem os profissionais: alguns são campeões em empatia e aceitação e outros em regras e limites. Alguns entendem que firmeza e amor são necessários, mas, como fazer que ambos trabalhem juntos? A síntese entre firmeza e amor é vital para crianças com problemas de conduta. Mas essas crianças exigem tanta firmeza, que os pais têm dificuldades em expressar amor; e precisam de tanto amor, que a firmeza se dilui.

Nessas situações o amor frequentemente toma a forma de compensação, o que enfraquece a firmeza anterior; ou a firmeza assume a forma de rejeição, anulando a mensagem de carinho. Neste livro proponho uma forma de criar a síntese de firmeza e amor, através do conceito de presença parental. Penso, assim, apresentar um caminho legítimo para o resgate da autoridade parental.

O livro aborda os diversos aspectos da presença parental.

O capítulo I (Definição da presença parental) apresenta e ilustra o conceito.

O capítulo II (Presença parental à luz de outros enfoques) analisa o conceito da presença parental à luz das abordagens comportamental, sistêmica e humanística.

O capítulo III (Presença Ativa) descreve como os pais podem recuperar a capacidade de agir.

O capítulo IV ((Presença Sistêmica) lida com a influencia de outras pessoas (o outro cônjuge, pessoas da escola, familiares e amigos dos filhos) sobre a presença parental.

O capítulo V (Presença pessoal) descreve a perda e o resgate, pelos pais, de sua voz pessoal e única.

O Capítulo VI (Autoridade flexível) lida com o impasse e como supera-lo.

O capítulo VII (Envolver a criança na terapia) apresenta algumas maneiras positivas de incluir a criança na terapia, sem enfraquecer os pais.

O livro termina com uma avaliação do conceito de presença parental dos pontos de vista prático, teórico e ético.

Ao longo do livro incluí vários casos não bem sucedidos. Creio que a credibilidade do profissional sofre com a apresentação maquiada de terapias sempre bem sucedidas, quase mágicas. Tal tendência faz com que pais e profissionais fiquem despreparados para dificuldades e impasses.

Links para o livro:
Editora Artesã
Livraria do Psicólogo

Duas caixas

(por Rubem Alves)

Aprendi de Santo Agostinho que o nosso corpo carrega duas caixas.

Na mão direita, ele carrega uma caixa de ferramentas. Ferramenta é qualquer objeto que sirva para fazer alguma coisa: um martelo, um lápis, uma agulha, um fósforo, uma panela, uma fórmula de remédio, uma receita de cozinha. Todas as ferramentas são invenções da inteligência. Tudo o que se encontra na caixa de ferramentas é "útil", meio para se viver. As ferramentas nos dão poder. Os membros do nosso corpo, pernas, braços, mãos, olhos, coração, são todos ferramentas.

Na mão esquerda, o corpo carrega uma caixa de brinquedos. Brinquedos são coisas inúteis; não nos dão poder. Eles nos dão alegria: dançar, cantar, jogar futebol, contar piadas, tocar flauta, ler um poema...

Se sua caixa de ferramentas estiver cheia, mas a caixa de brinquedos estiver vazia, você será muito forte mas não terá alegria.

A arte de viver exige que carreguemos as duas caixas: a que nos dá meios para viver e a que nos dá razões para viver.

[Extraído do livro "Palavras para desatar nós", Rubem Alves, Ed. Papirus, 2011]


domingo, 18 de dezembro de 2011

Lei contra a punição física: Uma palavra aos cristãos que valorizam a Bíblia como orientação para a vida

A lei contra castigos físicos aprovada pela Câmara dos Deputados nesta semana tem provocado um intenso debate em muitos setores da sociedade. De maneira especial, o tema vem sendo negativamente repercutido entre alguns grupos cristãos, pois a lei estaria indo de encontro à orientação biblica no que se refere à educação infantil.

Os principais argumentos utilizados por alguns cristãos e líderes religiosos para criticar a lei estão baseados principalmente em textos do Antigo Testamento, em especial o livro de Provérbios, que cita várias vezes o uso da “vara” como medida educativa, dando a entender que bater nos filhos tem o aval divino.

O problema é que qualquer texto bíblico deve ser analisado à luz de seu contexto histórico, cultural e social. A tradição teológica contextual nos alerta para o risco de adotar interpretações legalistas e desconectadas de seu contexto imediato. Por esta razão encontramos muitas leis no Antigo Testamento que não são cumpridas hoje, pois sabe-se que tais leis faziam sentido apenas naquele momento, para aquela sociedade.

Exemplos? sacerdotes não podiam raspar a cabeça nem aparar as pontas da barba. Pessoas com deficiência física que não podiam oferecer sacrifícios a Deus por serem consideradas “defeituosas”. Comer carne de porco era proibido, assim como frutos do mar. Homens podiam vender suas filhas como escravas, mulheres não podiam pedir divórcio, e em caso de adultério seriam apedrejadas até a morte.

Enfim, eram leis que hoje aos nossos olhos são vistas como estranhas ou sinais de barbárie, mas estavam simplesmente de acordo com a mentalidade daquele tempo. Nesse contexto, usar uma vara para “corrigir” uma criança era tão aceitável quanto bater num escravo ou apedrejar uma mulher adúltera.

É este tipo de análise contextual que faz com que os cristãos de hoje não saiam por aí apedrejando mulheres, açoitando empregados, ou abstendo-se de um delicioso prato de frutos do mar.

Portanto, se cremos que o uso da vara vale para hoje porque é mandamento divino, também teríamos que lutar pela volta de práticas como tortura, açoites e apedrejamentos.

Além disso, ver a aplicação de castigo físico a uma criança como sendo lei de Deus é desconsiderar o principal salto teológico da cristandade: o advento de Cristo. O nascimento de Jesus foi o marco que instituiu uma nova época, uma Nova Aliança, um Novo Testamento. Uma nova mentalidade, em que a lei dura e severa é substituída pela Graça de Deus, cuja compreensão traz profundas transformações na maneira de se relacionar com Deus, com o próximo, com a humanidade e com a natureza. Um novo tempo não mais regido exclusivamente pela Lei, mas pela Graça. Não mais pelo castigo, mas pelo amor.

Neste Novo Testamento, as relações familiares e sociais não são mais estabelecidas a partir de um viés de violência, mas sim de um referencial de amor e respeito mútuo. Não se fala mais em “vara da disciplina”, mas na disciplina do amor.

“E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor” (Efésios 4:4)

“Disciplina" não é sinônimo de “punição física”. Há muitas maneiras de se disciplinar uma criança sem erguer uma vara, um chinelo ou uma mão sobre ela. “Dar limites” não é sinônimo de “bater”.

Negar-se a usar a política da palmada não é de maneira alguma negar-se a educar, a disciplinar ou a impor limites tão necessários na formação da criança. Nem tampouco é colocar em risco a posição de autoridade parental. É, ao contrário, a tentativa de constituir uma configuração relacional que seja diferente do modo vigente em nosso mundo já tão repleto de maus tratos, opressão e injustiça. É principalmente uma forma de “não se conformar com este século, mas transformar-se pela renovação da nossa mente” (Romanos 12:2).

Os cristãos que se orientam pelas Sagradas Escrituras possuem um genuíno desejo de serem diferentes do mundo que aí está. Precisamos, portanto, lembrar que bater nos filhos é igualar-se a este mundo, pois a cultura da palmada ainda continua a ser o padrão secular na educação infantil. Usar a punição física nos coloca na mesma fôrma social que tanto criticamos.

É fácil? Não, não é nada fácil.

Certamente o caminho alternativo do amor é muito mais difícil, exige dos pais muito mais tempo, paciência, sabedoria, auto-controle, e especialmente o exercício de seus próprios limites para não “perder as estribeiras”. Afinal, como um pai pode ensinar limites a um filho, se ele mesmo não consegue controlar os seus próprios limites no momento da fúria?

Eu não tenho dúvidas de que seria muito interessante se a comunidade cristã, em especial a evangélica, à qual também pertenço, pudesse se deslocar de uma interpretação literal e legalista do Antigo Testamento e despertar-se para esta realidade da Nova Aliança trazida por Cristo, e pudesse finalmente conhecer o que realmente acontece quando uma criança do nosso tempo recebe uma punição física, e quais são os efeitos sobre ela.

Certamente compreenderíamos muito melhor o que o apóstolo Paulo quer dizer quando nos desafia a não provocar em nossos filhos a ira, o medo, a angústia ou qualquer outro sentimento negativo que causa tantos danos à identidade de nossas crianças.

Que Deus nos ajude a sermos pais que vivem sob a Graça do Novo Testamento.

Leia também:
O que uma criança aprende quando apanha
O que uma criança sente quando apanha

sábado, 17 de dezembro de 2011

Não é estranho isso?

A sociedade já conseguiu proibir os escravos de apanhar, já criou leis rigorosas para defender as mulheres, já não bate mais nos seus "loucos", já criou instituições de defesas dos índios, já considera crime a tortura de prisioneiros, já luta contra o mal trato aos animais. Apenas as crianças ainda apanham com o consentimento social. Não é estranho isso?

O que uma criança aprende quando apanha?

O que uma criança aprende quando apanha?

. Para resolver um conflito, posso bater no outro.
. Papai diz que me ama e me bate. Posso bater em quem amo.
. Não sei se meu papai me ama.
. Eu sou feio e burro, faço sempre errado.
. Agressividade é algo normal.
. Da próxima vez, vou fazer escondido pra não apanhar.
. Se eu mentir, meu pais não saberão de nada e não apanharei.
. Se eu disser que não doeu nada, eu me vingo dele (como conseqüência, apanha mais, até doer de verdade)
. Se eu quero um brinquedo do meu amiguinho, vou bater pra ele me obedecer.

[Leia também O que uma criança sente quando apanha]

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O que uma criança sente quando apanha?

O que uma criança sente quando apanha?
. Dor
. Mágoa
. Tristeza
. Rejeição
. Dúvida
. Raiva
. Ódio
. Insegurança
. Medo
. Muito medo

[Leia também O que uma criança aprende quando apanha]


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Educação familiar

Interessante como nessa época de matrículas escolares, as escolas fundamentam sua publicidade no método educacional que utilizam. Montessoriano, Waldorf, Pikleriano, Construtivista, etc.

Como resultado, nós pais ficamos um pouco perdidos em meio a tantas opções.

Tudo bem, este é um conhecimento importante, pois as metodologias servem como orientadoras e norteadoras das posturas pedagógicas assumidas pela escola.

Mas não podemos nos esquecer que antes da Escola, quem educa mesmo são os pais.

Independente da abordagem teórica, se é educação Montessoriana ou Educação Construtivista, o que a criança necessita acima de tudo é de uma Educação Familiar.

sábado, 3 de dezembro de 2011

O que dar a uma criança no Natal?

Vestibular. Apenas uma prova

Você vai fazer vestibular no próximo sábado.

Posso compartilhar algumas idéias com você?

Eu também já passei por isso. Pra falar a verdade, várias vezes. Algumas eu reprovei. Outras eu passei, mas depois vi que o curso escolhido não encaixava comigo e mudei de novo. Ao todo, se minha memória não falhar, foram uns seis vestibulares. Em alguns fui aprovado mas não concluí o curso, e o último que fiz foi em 1997, ano em que ingressei na Psicologia.

Hoje sou um psicólogo formado há 10 anos, atuando na área clínica, e tenho um enorme prazer pelo meu trabalho.

Por que estou lhe contando esta história? Porque gostaria de lhe falar algumas coisas:

. Vestibular é apenas uma prova. Não é a sua vida que está em jogo, nem o seu futuro. O vestibular é uma pequena parte desse futuro, mas não é tudo.

. Talvez você esteja se perguntando: “se eu não passar, o que vai acontecer comigo?” Mas posso lhe fazer outra pergunta? Se você passar, o que vai acontecer com você? Afinal, a gente nunca sabe o que vai acontecer conosco.

. Vou lhe sugerir um pequeno exercício. Olhe agora ao seu redor, e tente identificar tudo que está no seu campo de visão. O que você vê? Até onde você consegue enxergar, daí onde você está localizado?

. Agora vamos amplificar. Vá até a rua, coloque-se em pé na calçada, e volte a identificar o seu campo de visão. Até onde você consegue ver, a partir de onde você está? Qual o limite de sua visão neste momento? Você consegue ver a cidade toda, ou apenas a sua rua e proximidades? É possível enxergar o bairro vizinho? Você consegue visualizar o que está ocorrendo a cinco quadras de onde você está?

. Assim é a nossa vida, assim são as nossas experiências do cotidiano. Vemos apenas o que está ao nosso alcance. O resto é chute, especulação, ou adivinhação.

. O que está no seu campo de visão agora? a prova do vestibular. Mais nada. O resultado? não dá pra saber agora. Vai passar ou reprovar? Não dá pra saber agora. Vai gostar do curso escolhido? Não dá pra saber agora.

. Quando você saberá estas outras coisas? Só quando você dobrar as outras esquinas, e outros campos de visão se abrirem diante de você. Porém, eles também terão seus limites, e você terá que aguardar outras e outras e outras esquinas.

. Então, caro vestibulando, permita-me lhe dizer: o que você tem agora diante de si é uma prova. Apenas uma prova.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Amor e ódio - LUIS FERNANDO VERISSIMO

[O Estado de S.Paulo - 01/12/11]


Um historiador do futuro - figura retórica tão útil quanto o Marciano Hipotético para se olhar o Brasil atual de uma certa distância- terá duas grandes dificuldades para entender que diabos se passou por aqui nos últimos anos. Uma será explicar o amor ao Lula. A outra será explicar o ódio ao Lula. 

As duas coisas transbordaram de qualquer parâmetro racional. Lula terminou seu mandato com um índice de aprovação popular inédito, e odiado na mesma proporção. O amor resistiu a escândalos, gafes, alianças indefensáveis, uma imprensa hostil e uma oposição ativa. O ódio se manteve constante até depois do mandato e não se diluiu nem numa natural simpatia pelo homem doente - o antilulismo feroz não é solidário nem no câncer.

Nosso historiador talvez desista de encontrar explicações para essa polarização extrema na disputa política e sucumba a simplificações sociorromânticas. Talvez conclua que Lula teria o amor da maioria pelo seu tipo físico e sua biografia independentemente de qualquer outra coisa, e seria aprovado pelos seus semelhantes não importa que governo fizesse.

E que o ódio ao Lula se explicava por nada menos científico ou novo no Brasil do que o preconceito social, uma repulsa atávica a quem ultrapassa sua classe e com isto ameaça todo o conceito de classe predestinada. No caso um torneiro mecânico inculto metido a grande coisa.

No fundo o que o perplexo historiador do futuro estaria dizendo é que é impossível confiar em padrões históricos como os que explicam outras sociedades para nos explicar. Não se trata de reativar a frase que o De Gaulle nunca disse, sobre nossa falta de seriedade. Somos sérios, sim. Mas também somos movidos a paixões que sabotam toda coerência histórica.

O Lula foi um catalisador de paixões, a favor e contra. E o mais extraordinário e brasileiro disso é que o amor e o ódio não têm nada a ver com os sucessos ou os fracassos do seu governo. Existem num plano a-histórico e apolítico de pura devoção ou pura raiva.