terça-feira, 17 de maio de 2016

Perplexidade

Perplexidade

O momento era de perplexidade.
Aos poucos ia se espalhando a notícia da prisão ocorrida no Getsêmani, fruto da traição de um companheiro de caminhada. “Trinta moedas” foi o valor da propina.
Talvez alguns pensassem que logo seria desfeito o provável engano e Jesus voltaria rapidamente ao convívio de seus discípulos.
Mas a perplexidade aumentou.
Julgado injustamente, foi condenado à morte pelos Juízes da época e pelo populacho que, numa manobra demagógica do governador da Judéia, bradou preferindo a libertação de um salteador e assassino.
Perplexas, as pessoas viram seu líder, portador de uma mensagem de paz e mudança de vida, ser humilhado pelas ruas da cidade enquanto carregava uma insuportável cruz.
Sem acreditar no que viam, seus seguidores ficaram mudos e assustados diante do ódio que emanava de seus difamadores, que iam acompanhando o cruel cortejo com um prazer sanguinário nos olhos e uma mórbida alegria que só aos doentes de espírito está reservada.
Alguns de seus seguidores ainda conseguiram ter forças para presenciar a última cena, a crucificação. O ato final que mataria não apenas o condenado, mas toda a esperança de dias melhores.
Perplexos, retornaram desolados a seus lares, sem imaginar que o que acabaram de ver ainda não era a derradeira cena.
Decorridos três dias, aos poucos uma nova notícia ia se espalhando pela cidade: o túmulo está vazio; a Esperança está viva e fortalecida. Jesus está vivo! A Semente incômoda que tentaram exterminar brotou novamente com toda sua beleza e vigor.
A perplexidade mudou de lado. A partir daquele dia, o mundo das trevas ficaria perplexo diante da força da Vida e da certeza de que não há poder que resista muito tempo ao poder da Esperança.
E a Boa Nova continua a alcançar todas as seguintes gerações, para a perplexidade dos que insistem em tentar eliminá-la.

João David Mendonça

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Livros Para o Amanhã

Este é o nome original de uma pequena coleção de 4 livros infantis muito interessantes e apropriados para este momento. Foram publicados em 1977 e 1978 na Espanha, e traduzidos agora pro Brasil.
Dias atrás escrevi sobre os desafios de conversar sobre política com nossas crianças.
Hoje quero sugerir esta coleção como um recurso literário que pode ajudá-lo nesta tarefa.
São quatro títulos:

(1) A DEMOCRACIA PODE SER ASSIM
(2) A DITADURA É ASSIM
(3) O QUE SÃO AS CLASSES SOCIAIS
(4) AS MULHERES E OS HOMENS

Meu filho de 8 anos, que está bem nesta fase de curiosidade sobre estes temas, devorou os livros.



 

Editora Boitempo, 2015

terça-feira, 19 de abril de 2016

Sobre os deputados brasileiros

Muita gente criticando os deputados brasileiros. 

Mas experimente fazer um teste. 

Preste atenção no que as pessoas curtem e compartilham no facebook. 
Pegue um texto questionando a redução da maioridade e leia os comentários. 
Clique num link que critique a revogação do estatuto do desarmamento e leia os comentários. 
Acesse algum artigo que condene as palmadas como forma de educar as crianças e leia os comentários. 
Leia algum texto sobre direitos humanos e verifique os comentários. 
Acesse alguma notícia sobre a política de cotas raciais e leia os comentários. 
Visite uma página que fale sobre a violência contra as mulheres e tente ler os comentários. 

Você vai perceber que estes deputados não estão lá por acaso. Eles representam uma grande parcela da população. Suas mentes retrógradas são apenas a ressonância das vozes que estão por aí, bem do nosso lado, no trabalho, na escola, na igreja, nos almoços de família, nas redes sociais. 

E isto é realmente assombroso.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Sobre crianças e Política

Para um pai que não gosta de deixar seu filho sem respostas, os últimos dias têm sido um grande desafio. Como explicar para uma criança os temas políticos que estão em pauta no país?

Ando pensando nisto ultimamente.

Não costumo incluir meus filhos pequenos nas conversas sobre política, especialmente neste momento de radicalização e polarização. Tenho bons motivos para temer que eles se envolvam em alguma discussão em que crianças repetem o que está sendo falado em casa, e, pior, algumas vezes com o mesmo grau de ódio de seus pais, como já tive oportunidade de presenciar.

Mas os acontecimentos políticos estão também alcançando as nossas crianças, despertando nelas dúvidas e curiosidades. E eu acredito que dentro do ambiente familiar, especialmente na relação com seus pais, a criança deve sentir-se livre para fazer qualquer tipo de pergunta, sem ter medo de estar “falando besteira”, ou “fazendo perguntas demais”, ou ainda “se metendo em conversa de adulto”. Se ela está perguntando, é porque de algum modo a temática está dentro do seu universo. 

Não responder, ou criticá-la por perguntar, seria limitar a sua curiosidade, e ela aprenderia que há coisas que não se deve perguntar aos pais. E este aprendizado vai alcançar também a sua adolescência, quando ela achará melhor então não comentar com os pais sobre o colega que está lhe oferecendo droga, não perguntar o que é cocaína, não relatar sobre a bebida que distribuíram na festa de ontem.

A criança que está perguntando - perdão pela redundância - é uma CRIANÇA. Portanto, a resposta precisa estar de acordo com a sua capacidade de discernimento. Para falar sobre política com uma criança, vale a mesma regra para quando se fala sobre morte, doença, divórcio dos pais, sexualidade, que são temas delicados mas necessários: não deixar de falar, porém não chegar a níveis de complexidade que tornem difícil o entendimento sobre o assunto, ou que a obriguem a se envolver além de sua capacidade de ação e compreensão.

Mas a criança está curiosa, ouve falar disso na escola, presencia discussões políticas no almoço de família, conversa com amiguinhos que repetem as falas dos pais. E então ela vem até nós com suas questões:

Pai, por que meu amigo acha a Dilma uma vaca?
Pai, o que é corrupção?
Pai, o Lula vai ser preso hoje?
Pai, por que o Aécio quer tirar a Dilma?
Pai, o que é impeachment?
Pai, criança pode ser presa?

Com estas perguntas (feitas literalmente pelo meu filho de 7 anos), a criança está nos pedindo: pai, conversa comigo sobre isso! Eu quero entender o mundo em que vivo.

E é aqui que não podemos deixá-la no vácuo, e temos a responsabilidade de ajudá-la. É o momento para conversar sobre direitos humanos, eleições, democracia e ditadura, respeito aos diferentes, pobreza, classes sociais. Conversas que, feitas de modo simples, podem ajudar a criança a ampliar sua visão de mundo e conhecer melhor a sociedade em que ela está vivendo. Conversas que se refletirão na construção de sua identidade e sua cidadania.

As crianças têm que se preocupar em não cair do escorregador, brincar até se cansar, arrumar o quarto, jogar muita bola, andar de skate, fazer a lição da escola, correr na pracinha.  Não é hora ainda de se preocupar com golpes políticos, com inflação, com taxa do dólar, com radicalismos ideológicos.

Mas quando elas perguntam, elas precisam de respostas. É direito delas.


sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Estudo: um amigo legal ou um mala sem alça?

Ano passado eu fui convidado a fazer uma conversa com um grupo de pré-adolescentes de uma escola municipal em Florianópolis.
O objetivo era tentar ajudar a moçada a pensar sobre a sua relação com os estudos.
Compartilho aqui os slides que serviram como roteiro para a conversa.



O aluno apenas frequenta a escola. O estudante vai além disso









Quem conhece a biblioteca da escola? e a da cidade?



Finalizando com uma pergunta do Estudo pra galera...

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Ampliar para não reduzir

Lamento que o debate sobre a redução da maioridade fique concentrado ora nos aspectos jurídicos, ora na discussão sobre a qualidade das unidades prisionais, ou ainda no raso discurso de que “se teve idade pra fazer, tem idade pra ser preso”.

É uma pena que algumas dimensões significativas vem sendo negligenciadas, a saber, os aspectos psicológicos envolvidos na adolescência, os efeitos nocivos de um encarceramento no período da formação da personalidade e construção da identidade, e os reflexos destes efeitos sobre a Sociedade a longo prazo, incluindo o aumento da violência ao invés de seu abrandamento.

Seria muito interessante se pudéssemos conversar sobre o que significa o desenvolvimento psico-social de uma pessoa e os estágios necessários para o seu desenvolvimento, incluindo a infância e a adolescência, cada qual com características inerentes à sua fase. E cada qual com suas limitações psicológicas - e cerebrais - próprias de sua identidade ainda não completamente desenvolvida.

Observar estas dimensões não implica estimular a impunidade para os delitos cometidos por um adolescente. Ao contrário, já há em nossa legislação punição prevista para crianças a partir de 12 anos, através de medidas sócio-educativas coerentes com cada estágio psico-social do indivíduo, que buscam acima de tudo a ressocialização e reconfiguração de seu modo de estar no mundo e na sociedade.

Portanto, não consigo me identificar com discursos que não tratem com profundidade estes aspectos negligenciados. Afinal, este não é um debate restrito à área jurídica, policial ou política. Ao contrário, é um debate que fica muito empobrecido se você não considerar as contribuições da Psicologia, da Antropologia, da Pedagogia e da Sociologia - podemos ainda acrescentar outros territórios de conhecimento, como a Psiquiatria e a Hebiatria (medicina da adolescência).

Quando não se tem conhecimento da complexidade do tema, a tendência é ficar apenas replicando as idéias de lugar comum, repetindo frases prontas que não dão conta de toda a abrangência que o assunto requer. Aí ficamos reféns das opiniões formadas pelas capas da Veja ou pelos posts sensacionalistas do Facebook.

Ampliar o debate, ampliar a mente, ampliar a reflexão. Não reduzir a maioridade.

João David C. Mendonça

Psicólogo terapeuta de família